Filmes, séries e livros

O Silêncio de Martin Scorsese

No ano de 2016 o impressionante diretor Martin Scorsese lançou o filme Silêncio (Silence), baseado na obra de Shusaku Endo de mesmo nome o filme apresenta a história de dois padres portugueses na missão de reencontrar seu tutor perdido no Japão do período de 1630, época em que o cristianismo era brutalmente oprimido no país.

Scorsese é um grande admirador do livro e utiliza o seu filme como forma de fazer reverência à obra, a versão impressa no Brasil (editora TusQuets) possui a introdução escrita pelo diretor (seja na versão original ou em português), e nas palavras do diretor “Silêncio… vai ficando cada vez mais precioso para mim à medida que os anos passam – trata justamente do particular e do universal. E, ao fim e ao cabo, a preeminência dada ao universal é esmagadoramente maior. (Martin Scorsese)”.

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Scorsese gravou um filme impregnado com odores, o impacto começa quando os padres  Rodrigues (Andrew Garfield) e Garupe (Adam Driver) entram em contato com o seu guia Kichijiro (Yosuke Kubozuka).

Rodrigues é um padre idealista e aparentemente inflexível que encontra em Kichijiro o seu contra ponto. Garoupe funciona como uma extensão da personalidade de Rodrigues, ora como seu conselheiro, ora como seu aprendiz. O entrosamento dos padres diante do terror que se estabelece lentamente no vilarejo é a muleta de equilíbrio para que nenhum deles entre em desespero.

Desde as primeiras cenas as personagens são expostas a um mundo rançoso, engordurado e moroso. A paleta de cores escuras e mórbidas é exposta pela iluminação natural e todo o ambiente é trabalhado para realçar o aspecto decadente da sociedade.

Como dito pelo padre em um dos momentos “são animais, que vivem e morrem como animais”. 

O filme se desenvolve de maneira gradativa, quase imperceptível, a situação dos padres se dissolve e se mistura com a situação do vilarejo em que ficam escondidos, mesmo as cenas inocentes pedem que o expectador mantenha-se alerta, alerta por que a selvageria silenciosa e sorridente do adversário dos cristãos não deixa folga para descansos.

No livro, assim como no filme, a violência e a perseguição dos cristão estão representadas na pele do senhor de Nagasaki chamado de O Inquisidor Inoue (Issey Ogata), Inoue é a voz e quem estabelece os castigos para os seguidores do cristianismo, contudo, o filme é muito mais denso para possuir apenas um antagonista…

Ao desenvolver dos acontecimentos o padre Rodrigues começa a levantar questões importantes a respeito da sua missão no Japão, o peso das suas ações, a capacidade de interpretar no silêncio a força da sua fé e como manter a coragem diante da injustiça.

Neste filme o diretor deixa de lado a violência muito mais evidente dos outros projetos para se focar em uma violência constante e gradativa, o exemplo melhor acabado desta técnica encontra-se em uma cena onde três habitantes do vilarejo são culpados por envolvimento com o cristianismo e condenados a um castigo de especial crueldade.

O convite que Scorsese nos faz nessa cena é o convite ao abismo. Neste momento dá inicio uma segunda batalha para os padres, a primeira que era encontrar seu tutor e a segunda, será que o catecismo destes homens e mulheres vivendo a beira da animalidade é um preço justo para todo o sofrimento causado?

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Como acontece no livro, Scorsese não se esconde dos questionamentos mais profundos, qual é o preço da fé? Até onde é possível que o corpo suporte as dores físicas para manter a fé? Qual é o limite entre a crença e a pura insanidade? Como a fé age em pessoas diferentes de culturas diferentes?

Evidente que o diretor não responde nenhuma destas perguntas, não por covardia mas por serem questões absolutamente particulares, e relembrando as palavras do diretor “trata justamente do particular e do universal. E, ao fim e ao cabo, a preeminência dada ao universal é esmagadoramente maior”.

Silêncio é um filme exigente, não entrega nada e não faz promessas, é preciso ter paciência e estar atento para o valor das pequenas nuances e compreender que o mais corriqueiro dos diálogos pode estar carregado de significado.

Um filme de personagens complexas, cenas angustiantes, cenários decadentes e muitos odores, não é para paladares destreinados, um expectador desavisado poderia interpretar o filme como uma propaganda ao cristianismo pura e simples, e talvez isso também seja verdade, entretanto, com uma segunda visitada a este Japão de 1600 é possível encontrar em Silêncio um eco de 2017, e este é o segredo da grande Arte, falar em todos os tempos.

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