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Sol

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Silvano deu o primeiro golpe de faca sem muita convicção, o cabo sujo de suor parecia mais áspero naquela manhã, tentou um segundo golpe com um pouco mais de firmeza, nada, a faca não estava conseguindo vencer as fibras e os nódulos, na terceira vez o golpe foi suficientemente forte porém desajeitado e a faca acabou presa no bambu da cana de açúcar. Silvano sabia que tinha de arrancar a  faca dali bem rápido, alguém poderia notar o embaraço e interpretar aquilo como moleza, daí a coisa poderia ficar realmente ruim,  o resultado poderia variar entre uma tarde sem almoço ou marcas de cigarro nas costas, tudo dependeria muito do espírito empreendedor do capataz naquele dia.

Estabelecer um castigo para moleza era a única vocação genuína do capataz, pessoa de pouca leitura, muito sol na cabeça e muitos filhos para criar, sabia que a moleza não curada se vira contra ele, quem não bate apanha então é melhor aprender a bater bem rápido e bem forte.

Silvano se lembrou de um assobio, coisa pequena, que a sua mãe cantava quando ela ainda era da cana, o menino fez um esforço para umedecer a boca e começou a puxadinha, assim como nos golpes de faca no inicio a melodia saia enroscada, tímida, meio troncha, mas depois com um pouco mais de paciência ele conseguiu engrenar uma sequência boa e dali pra frente o trabalho fluiria melhor.

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– Benza Pai.

A única panela da casa ia com o fundinho de arroz e um pouco de mandioca, Silvano ajeitou melhor a panela e pegou o irmão mais novo no colo. A distribuição dos aposentos não é muito complexa e faria qualquer arquiteto minimalista morrer de inveja branca, dois ambientes com no máximo dez itens ao todo. Um ambiente para as necessidades, outro com  duas cadeiras, uma mesinha de madeira  simples, um banquinho no canto com a foto da virgem e um terço, no canto oposto o fogão de duas bocas a gás (financiado pelo capataz) e cruzando a sala uma rede velha manchada de sangue.

Silvano foi até a fotinho da virgem e colocou a mão na testa.

– Benza mãe.

O pai de Silvano fez o melhor que pode para levantar da rede sem demonstrar fraqueza, o primeiro pé encostou no chão com firmeza mas o segundo já não tinha o mesmo vigor.

– Quando a faca pega lisa e certeira na cana é uma beleza, agora quando pega na perna da gente rapaz, é de ver o diabo – Silvano lembrou de ouvir o pai dizendo isso enquanto sorria para alguns amigos na volta do dia, pelo sorriso do pai o machucado não parecia tão grave, entre risadas e comentários todos eles se reuniram, lavaram com cachaça e a família de Silvano, pai, irmão e ele, ganharam um punhado extra de arroz naquele dia graças a um acordo fechado secretamente entre os trabalhadores – o menino, isso aqui é coisa pouca, rapidinho já fechou.

Silvano lembra do pai tentando trabalhar ainda mais uma semana com a perna escondida, o problema é que todo o sangue coagulado durante às poucas horas de sono acabam rachando e tornando a sangrar no dia seguinte, e é de péssimo tom para o capataz entregar uma saca inteira de cana suja de sangue.

É claro que o menino não sabe exatamente o que é coagulado, ele não tem esse conhecimento abstrato dos médicos sobre como um machucado funciona, tudo o que ele tem é um instinto adquirido durante o rachar do sol na cabeça, ele sabe, sem saber por que sabe, que se deixassem seu pai quietinho, comendo bem, bebendo água e deitadão na soleira bem varrida da casa grande  a perna ficaria boa, agora, enfurnado numa casa que cheira a mijo, comendo papa de arroz e espantando os mosquitos com um pedaço de camiseta aquilo não ia fechar nunca.

De todo modo era melhor ter ele ali, respirando, bebendo e mentindo uma risada, do que não poder ver mais.

– Eu tirei a sorte grande menino, vou trabalhar na sombra, longe do sol e quem sabe não consiga tirar você daí também – O sorriso da mãe nesse dia fez o peito de Silvano ficar estufado e as bochechas quentinhas, o menino não sabia direito que gosto tinha ser criança mas era como se a própria virgem estivesse falando pelos lábios da mãe – vai trabalhar na sobra é, a senhora é muito da folgada mesmo? – disse rindo e ela riu de volta.

Quando a sua mãe se enfiou para dentro do galpão nem ele e nem ela sabiam o que esperar dessa “promoção das boas”, como disse o capaz, desde aquele dia o menino voltava para casa cheio de esperança.

A primeira noite foi diferente, o fato da mãe não ter voltado na mesma hora que todos os trabalhadores tocou uma nota dissonante na casinha. É esse sentimento de incerteza que bate quando você não tem conhecimento de nada, não sabe onde está pisando e a única coisa que pode fazer é esperar.

E ai ela apareceu.

Cansada, calada, falava pouco, concentrava as suas atenções em varrer o chão e falar com a virgem. Silvano nunca teve coragem para conversar com ela e mesmo se tivesse não tinha nada na cabeça para saber o que dizer, bem cedo ele tinha que voltar para a faca e ela ia para o galpão.

Assim passou um mês.

Até que ela não voltou, não voltou tarde da noite, não voltou cedo no dia seguinte, ninguém a via ou sabia dela. O pai vendo que a situação exigia dele uma resposta mais decisiva tentava de tudo arrancar alguma informação do capataz, deste só conseguia os respingos de cachaça na fala e ordens de voltar ao trabalho.

– Você que é o Silvano, seu pai tá ai? – O homem vestido de padre apareceu, a batina puída, cara cansada, era notável que não estava habituado com o sol.

– Está sim senhor mas ele não pode atender não, a febre tá que não deixa.

– Quantos anos você tem, menino?

– Dizem que tenho 12.

– Já é homem já, menino?

– Sou sim senhor.

– Esse ali é seu irmão?

– Esse ali é meu irmão sim senhor.

Sem saber como continuar o assunto o padre resolveu acertar logo a sua conta com aquela situação,  a vida do menino era surrada do inicio ao fim, não tinha razão para tentar amaciar agora.

– Sua mãe morreu menino, enfiou o braço na máquina de esmagar cana. A prefeitura procurou por mais de quinze dias quem pudesse dar nome para a morta mas não acharam ninguém, deu que o capataz que conhecia ela me avisou da casa de vocês e aqui está. O endereço é esse aqui e o número da lápide é o que está aqui, sabe ler?

– Sei não senhor, meu pai se tivesse acordado também não ia saber não senhor.

Não dá para deixar a faca presa no bambu e Silvano sabe disso, conseguiu tirar ela com agilidade e voltar aos golpes, um, outro, a cana vai caindo e ele vai acertando o passo. A melodiazinha acompanha o dia de sol.

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PS: As fotogrfias em preto e branco são de autoria de David Arioch, todos os direitos reservados ao autor. 

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