Contos

Na praia

O exército Brasileiro é equipado com um fuzil de repetição de fabricação nacional. Diante desta arma a lataria de um carro popular é absolutamente insignificante, a bala poderia atravessar a porta e encontrar a carne e os músculos localizados dentro do automóvel.

Se disparada a uma distância média essa mesma arma é indiscutivelmente letal mesmo para pessoas equipadas com colete a prova de balas, existem casos em que essa arma consegue atravessar inclusive carros blindados, imagine o que ela foi capaz de fazer com o crânio do menino negro.

A sensação de contexto é essencial para que possamos dar alguma leitura coerente do que acontece, quando você observa uma praia espera encontrar nela volúpia e sensualidade.

O contexto da praia é futevôlei, são biquínis miúdos, correria e pessoas sorrindo, se encerra nesse termo praia todo um universo de experiências que estão relacionadas ao bem estar, talvez o gosto de sorvete já venha na boca de uns, ou o estresse do trânsito, praia é local de gente, de soldados?

Vê-los na praia instiga a contradição, parece um daqueles quadros que o artista responsável resolveu brincar com a ilusão de ótica e desenhou uma escada sem fim, você segue ela com os olhos e o ultimo degrau se reencontra ao primeiro dando uma pequena torção no seu cognitivo, você por um instante fica sem entender exatamente o que aconteceu e lá está a escada começada novamente, ver um soldado de guarda na praia é como assistir a uma apresentação do absurdo.

A maioria deles faz a ronda de dois em dois, são raros os trios e é impossível encontrar um quarteto.

Você já reparou como os shoppings são construídos tão rápido? Um dia o terreno estava lá cheio de lojas fechadas, espaços vazios e casas acabadas, e então em um domingo quando você sai para comprar ração para o cachorro lá está o shopping, diversos carros entrando e saindo dele, jovens se reunindo na porta, é impressionante, a construção dessa coisa deveria fazer muita bagunça e muito barulho, como é possível?

Quem estacionou este tanque na beira da praia? E quero dizer, para que? Obviamente um traficante não vai trocar tiros com o exército assim em campo aberto apenas por puro senso de batalha, certamente não tiros o bastante que justifiquem a presença de um tanque de guerra na beira da praia, esse tanque não está aqui para disparar balas contra bandidos.

O tanque, os soldados, o fuzis e os coletes a prova de balas estão todos aqui para passar uma mensagem agora falta saber ler qual é, será para nós, será para quem? “Os bandidos”, esse termo genérico que neste contexto é usado sobretudo para englobar quem? Pergunte-se, será? Pergunte-se.

Quando o garoto desceu da favela ele poderia prever o que estava para acontecer? É complicado, tudo isso se mistura e se dissolve de forma confusa, garotos, fuzis, a praia, a fome, o iphone e o trabalho.

Ela saiu do Shopping dentro de uma Ford Ka novo e completo, tudo estava jogado no porta-malas, não tinha muita pressa para chegar em casa, nada de muito importante para o dia de hoje. Os faróis, os caminhos e as sinalizações estavam todas lá, seu GPS estava lá, então o que poderia tê-la avisado sobre essa abrupta quebra na sua rotina?

O próximo farol era só um farol, programado para acender três luzes que em si não significam nada, não existe qualquer motivo especial para elas estarem onde estão e atuarem como atuam se não fosse a convenção estabelecida entre todos os que olham para aquelas luzes, assim como um dia as estrelas foram usadas.

A moto que parou do lado do Ford Ka não tinha placa, a arma sacada não tinha numeração, as palavras de ódio não tinham dono, tudo naquele dia parecia funcionar como um estranho teatro pré-estabelecido que vinha sendo ensaiado havia muito tempo.

Em quanto tempo eles conseguem levantar um shopping center?

Após um susto ela procurou em vão pela bolsa no branco de trás e percebeu que segurava o ar, nada, nada, um jogo de mimica definitivo, pelo espelho, uma palavra, quatro letras, nada. Não tenho nada.

Ele disparou uma bala sem dono.

Duas balas foram disparadas naquela oportunidade, uma saída de um revolver calibre 38 de numeração riscada, a outra partiu de um fuzil de uso do exército brasileiro.

Apenas uma pessoa deu entrada no hospital graças a essa cena, foi levada as pressas sangrando com um ferimento grave no ombro o que rendeu uma publicação da melhor amiga na timeline, por favor, doem sangue no hospital tal do tal, rashtag forçamiga, rashtag jesus no comando.

Existe uma mensagem implícita nessa atuação, tem de haver alguma coisa que possa ser interpretado, algo que deve ser lido disso, que leitura é essa, o que isso tudo quer dizer?

A questão é, quando um tanque de guerra é estacionado na beira da praia, quem está passando a mensagem para quem?

militares_praia-fabio_motta

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