Contos

O casaco velho do Thoreau

É difícil escrever, às vezes não aparece nada. Você passa algumas horas estudando crase, o uso dos porquês, pega uma ou duas referências, manda alguns currículos, tenta pegar uns freelas e senta para escrever, e aí? E aí porra nenhuma, a tela branca fica olhando para a sua cara e você não é nenhum Raduan Nassar para conseguir fazer a coisa andar. Eu não sei como o Machadão se virava com a folha em branco mas vou te falar, é uma merda.

Você desliga a cabeça, abre um site, tenta descontrair e olha para um álbum de figurinhas de notícias merdas, dá para colecionar e trocar com os amiguinhos – ou, eu tirei duas repetidas sobre desastres naturais e duas sobre barcos, troca comigo por essa de crime de ódio e essa de abuso sexual? Firmeza, completei meu álbum, li tudo o que existe de errado no ser humano por hoje.

Algumas pessoas ficam dizendo que tudo isso faz parte das relações de poder, que poder cara, quando alguém teve poder aqui? É difícil, uma notícia sobre a outra, um assunto por cima do outro, é filme novo, é ministro dormindo, cheirando, é presidente, é esposa do presidente, é coisa para caralho. A gente fica meio ressabiado, sei lá, parece que tão forçando você a engolir um monte de coisas com um funil.

Você não entende nada, esse trabalho que você tem como chegou nele? A vida vem te olhando de longe e vai tricotando umas meias feias sem nem te perguntar nada, você até tenta falar com ela, mandar um chaveco, você chama a vida para perto, pergunta se ela quer  ir para um lugar mais silencioso para vocês conversarem, isso não  vai dar em nada, a vida vai ficar com o primeiro babaca que aparecer.

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Já reparou? Parece que a vida está sempre dando certo para os maiores babacas do mundo, parece perseguição, de quem? Dá desespero, é um entra e saí no metro, no escritório, na internet, fica essa felação de você com a vida e da vida com as coisas, a sensação que passa é que nada de significativo está acontecendo.

Então você se lembra de que está sendo muito injusto, porra, têm um punhado de coisas incríveis acontecendo, têm gente legal pra caramba do teu lado fazendo coisas legais, pegando projetos, topando correr riscos com você. Tem gente dividindo toda a vida dela contigo, têm ainda aquelas pessoas que a vida delas é doar tudo por você, para essas inventaram o nome de mãe e pai, nessa hora você se sente mais merda ainda, merda por que tá desgostoso com a meia que a vida te tricotou e mais merda ainda por se sentir desgostoso por isso, já que as pessoas legais estão todas te dando moral e você tá lá revoltado com alguma coisa que nem dá para saber o que, é tipo um desgosto por algo que não tem corpo nem nome, só sei que não está legal, o que fazer?

Dá para tentar ouvir música, abrir um disco antigo, baixar uns álbuns, a maioria dos artistas legais já morreram, morreram antes mesmo de você sequer existir, porra, é um saco. Você escuta, eu escuto, a agonia passa um pouco, depois de respirar e respirar com calma algumas coisas melhoram.

Bora pegar esse metrô, tudo bem, todo quinto dia útil cai uma grana, dá para assistir um jogo no estádio, comprar algumas coisas legais, sair com a menininha, tudo bem, vai fazer o que né? Pois é, vai fazer o que?

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Estes livros de autoajuda são injustos pra caramba, eles partem do pressuposto falso de que tudo está nas suas mãos, olha a cretinice desse conceito, como se absolutamente todas as variáveis possíveis pudessem ser ordenadas por uma única vontade, acredite e tudo muda, é muita crueldade. No começo a leitura parece bobinha e para inocentes, depois, depois dá muita raiva, é como se o livro estivesse te chamando de doido, você pode decidir tudo sobre a sua vida, é o líder dela, pena que é mentira. Covardia, porque as coisas vão dar errado, vão dar  certo também, nos dois casos a responsabilidade é dividida entre um punhado de pessoas e situações, não só você e definitivamente não só o livro.

Outra coisa é esse papo de que cada dia é um novo dia, mais ou menos, novo na medida do possível, normalmente o dia novo é muito mais o anterior do que o seguinte, entendeu? Se você paga aluguel a vida toda, a probabilidade é de que você permaneça pagando o aluguel e cada novo dia cheio de possibilidades seja só o resumo do intervalo entre o pagamento de um aluguel e o próximo, para um dia novo começar realmente cheio de possibilidades novas dá trabalho, não só para você mas para uma porção de pessoas que estarão envolvidas em todo o processo. Então como acontece? Acontecendo, é só assim. Você abaixa a cabeça e continua pagando aluguel, continua fazendo seu trampo e continua dando mais atenção para as pessoas que somam na sua vida, de algum modo, gradativamente, as coisas vão mudando. Não tem essa, cada dia não é um novo dia cheio de possibilidades, não caí nessa não, mas isso não significa que ele precise ser exatamente como o anterior, cada dia é um arrozinho diferente do anterior, aceite isso e tudo pode melhorar.

Sei lá, ou não, são só pensamentos, é deixar a mão escrever e talvez isso sirva para alguma coisa, não dá para tentar ser o expert em tudo, não importa quantas notícias eu abra, algumas vezes não aparece ideia nenhuma, a cabeça começa a ferver. No fim o importante é escrever né, colocar algumas coisas enfileiradas, o pior que pode aconteer é eu decidir apagar. Ou não, deixa aí, como diria Thoreau , “o casaco velho pode não me servir mas isso não significa que ele não servirá para alguém”, não foi bem assim, para começar ele disse em inglês, mas é meio isso.

 

Se servir tá aí, use bem.

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Contos

Pele com pele

A sensação de engolir um prego. Jonathan segurava a alça do caixão e o peso do caixão segurava a sua mão. O passo fincado em ritmo uniforme vencia o caminho até a cova, as botas de borracha, presente do tio, mantinham os pés secos enquanto o mundo era tormenta. Trovejava e ao fundo o som das orações. Oravam e ao fundo o som dos trovões.

As gotas que batem no gorro plástico da capa acentuam o tamborilar dos pés, o trecho é curto, dez, quinze metros se tanto, a infelicidade é que Jonathan não percorre com os pés descalços e as mãos livres e sim com as botas para lama e o peso da alça. Isso faz toda a diferença.

 

Sebastião trocou a marcha com alguma facilidade, apesar do câmbio ser longo, desconfortável e às engrenagens do ônibus antigo estarem sem lubrificação, o motorista compensa com todo o jeito conquistado após anos de prática. O parabrisa pontua o andamento do trânsito sem cessar, as raspadas sonoras são causadas pelas borrachas que deveriam ser substituídas. Em dias de chuva, o motorista gosta de segurar o motor e manter o veículo perto de si, sob controle, mesmo com toda a experiência ele morre de medo de precisar fazer uma parada brusca.

 

Silvana estava almoçando, o que era um alívio. Depois de ficar praticamente os últimos cinco dias sem comer, por conta de uma intoxicação alimentar, acidente que lhe arrancou a fórceps quase três quilos e fez com que ela perdesse toda semana de trabalho, para Silvana o fato de estar de frente para um prato de comida era a melhor notícia que tinha em muito tempo. O tratamento foi muito mais orgânico do que ela gostaria, sem dinheiro, e nem paciência, para procurar um médico decente, a garota resolveu seguir o conselho das outras amigas que trabalham na mesma rua, o tratamento era bem simples, beber água e apenas isso. Se tivesse procurado o médico Silvana saberia que a ingestão de água sozinha não era garantia de melhora porque a bactéria que se alojou na parede do seu estômago não ia ceder tão fácil a tratamentos simples. Infelizmente para Silvana as meninas pensaram que ela estivesse de ressaca ou que pudesse ter cheirado demais, e a culpa não é delas. O cotidiano nas ruas, e os empecilhos da profissão de prostituta, fazem com que a pele de qualquer moça se torne grossa como um carro blindado; e aí quem iria culpar uma delas de acusar a prostituta mais novinha da região de molenga? – Essa aí tá de frescura, nem bem começou e já está vomitando as tripas.

 

A corda raspava com força nas mãos de Jonathan, efeito piorado pelo fato delas, mãos e corda, estarem ensopadas. É preciso ter calma e sincronia com o outro que está baixando o caixão, se for muito apressado ou se o braço vacilar, o caixão desce de uma vez e isso trará muitos problemas. São muitas as vidas que acompanham a caminhada e o enterro de um caixão, a tristeza é um dos gatilhos preferidos da fúria. Um pai que vê o caixão do filho sacudido com força indevida não tem tempo de pensar antes de atirar-se para cima do coveiro, Jonathan sabe muito bem disso – machucou muleque? Não senhor. Percebeu a burrada que tu fez? Percebi sim senhor.

 

A formação é nenhuma e o dinheiro é pouco. Sem solução para ajudar nas contas de casa, situação agravada pela demissão do pai, o menino fez o que todo bom muleque faria no seu lugar, tentou roubar. Tonto demais para a profissão o garoto levou uma boa surra dos bandidos locais para aprender a não atrapalhar ladrão, sem nada pra fazer resolveu perambular pela rua atrás de esmola. Seis meses depois ele descobriu, sem querer, que a mesma estatística do desemprego que ferrava com a vida do seu pai podia ser uma ótima oportunidade para fazer algum dinheiro. Se o desemprego cresce os homicídios sobem. A prefeitura para compensar a fábrica de morte aumenta o contingente dos cemitérios públicos e foi aí que Jonathan conseguiu encontrar sua fatiazinha do bolo. Dono de dois braços fortes e uma mente fraca o menino rapidinho caiu nas graças dos funcionários.

 

– Se deixar, esse bicho leva até o Faustão sozinho no braço.

– O Faustão não é mais gordo não, seu paraibano burro.

– Quem caralho não é mais gordo, seu corno desgraçado?

– O Faustão, não é gordo não rapaz.

– Gordo é a tua cabeça seu merda, porra de Cearense quer falar de Paraibano, tô feito mesmo.

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Os seios dela eram firmes, o balanço bem distribuído enchia os olhos do menino. Dezenove anos e já puta, era uma sorte, dava até para acreditar que ele era o primeiro do dia, quem saberia dizer o primeiro da vida, besteira sua Jonathan, não importa. Os cabelos soltos agiam como uma cortina de cor escura sobre aqueles olhos perdidos. Ela dançava sem pressa sobre o seu corpo, pele encontrando pele, vozes encontrando vozes. Porra, é para isso que eu trabalho, até que enfim. O menino segurou um arroto cheio de cerveja e tentou concentrar toda a sua atenção no ato. A pele dela tinha cor de sabonete hidratante, de rico sabe. O gemido distante da menina parecia vir do horizonte de algum interior de São Paulo para encontrar os ouvidos do Jonathan. Leves ao toque, os mamilos respondiam ao mais simples aceno de uma mão ou uma língua… foi quando ela caiu.

 

Sebastião parou fora do ponto e deixou que os jovens entrassem pela última porta. O garoto moreno e de olhos injetados parecia atuar no piloto automático, subia e descia um pedaço de papel na frente da garota com o intuito de fazer circular um pouco de ar. A menina pálida, um pouco de nascença e um pouco por fraqueza, tentava se segurar no ônibus em em si mesma, por duas vezes não conseguiu e o vômito carmesim encontrou o chão.

 

– Deus me perdoe, eu nunca vi ninguém vomitar sangue.

 

É como engolir um prego, disse o cara que fazia a entrevista. – Na primeira vez você fica meio destoado, tá toda a família da pessoa lá e você não sabe bem o que fazer, fica naquelas né amigo, leva o caixão e vai andando manso, falando baixo. Depois da décima você já carrega um defunto mesmo, faz sua parte e pronto.

 

Se ele soubesse, agora não dá para saber se dentro do caixão tem uma conhecida ou não. Para Jonathan é de doer, pelo palavreado, que ele pode pescar enquanto aguardava o final do velório, a família tinha acabado de chegar do interior de Minas, a mãe, extremamente abalada, dizia que a filha trabalhava em um banco e ganhava muito bem em São Paulo, mandava todo mês o dinheiro contadinho para os pais. Uma doçura.

 

Deitou a última pá de terra e se foi. Esse é o momento de deixar os parentes falarem pela última vez com a pessoa viva antes de iniciar todo o processo de aceitação.

 

Ele sabia que não deveria ter dito nada, para que magoar a mãe e os parentes daquele modo? Ainda em um dia como este? Ou será que ele não disse.

 

A cabeça já não funciona bem, em casa Jonathan pediu para a mãe acender uma vela – Acendo sim meu filho – mesmo cascudo como um carro blindado, o menino chegou à conclusão de que pelo sim, pelo não, é melhor tratar bem os que se foram.

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Pratos sujos

Nas mãos um lápis. Ao ouvir o seu nome ela se esticou com pressa e levantou o braço – presente – apenas isso.

Na rua a luz desce em um branco sujo, o reboco difuso e feito de manchas escuras relembra que tem mofo e o mofo de que está vivo. O mundo se torna composto por cantos sem sombras. A falta de sombras em dias frios passa a impressão de que elas estão na verdade dentro de você.

A água sai da torneira em mordidas, mesmo a porcelana parece gemer e se contorcer ao toque do detergente, a gordura, teimosa, escorrega pelo encanamento.

Existe fumaça lá fora, os latidos vêm acompanhados pelo apito do caminhão que manobra, são três homens ao todo, um dirige e dois correm, lançando os sacos de lixo no compartimento de trás.

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– Cuidado com a graxa – ela se lembrou de ouvir isso quando voltava para casa, na ocasião a irmã mais velha preveniu, muito mais por necessidade de parecer madura do que por impulso maternal. A pequena ficou esperando fora do bar enquanto a maior buscava a chave de casa.

Hoje é só o metal limpo e bem pintado. Talvez nem tenha graxa, talvez ele nunca tivesse e o aviso foi por pura besteira ou carinho, ela não saberia dizer.

É isso que ganha o nome de rotina, um dia comum seguido por outro dia comum que com a soma de todos eles, e são muitos, transformam a realidade completamente. Quem acredita que a rotina é um punhado de dias todos iguais deve ser uma pessoa de sorte.

Nas mãos uma bola, a rede de vôlei não faz muita diferença mesmo por que nenhum delas salta, ou sequer têm altura, para fazer um bloqueio, está lá por convenção da partida. A bola sobe de um lado para o outro, lenta, preguiçosa, para o alto, recebe e devolve; alta, suja, recebe e devolve. Em algum momento uma delas comete um erro, um deslize, pode ser uma tentativa de se antecipar ou um simples descuido com a postura e pronto, a bola toca no chão. Ponto para o outro lado.

E basta isso, as famílias seguem um apoio medido, cronometrado. Os comentários são ensaiados, os gritos de apoio estão em concordância, mesmo as reclamações e as briguinhas exaltadas entre elas leva em conta um acordo pré-estabelecido. No roteiro estão as linhas do chão, a rede, a bola, as meninas e a grade cinza.

Nãos mãos um prato sujo e a torneira aberta. O detergente deve ser guardado de cabeça para baixo para que ele possa descer até a tampinha e aguardar o momento de ser usado. O ralinho da pia fica sempre entupido com os restos de comida. Um dos momentos mais nojentos é justamente ter que retirar ele e jogar esses restos no lixo, algumas vezes, por puro capricho, ela deixa o caminho livre para a comida descer direto pelo cano – vai entupir – diria a mais velha, mas não entope.

Nas mãos uma prece, a vela está posicionada em frete ao túmulo, em dias frios o barro ganha vigor, se impõe e mancha a sola dos tênis e o caminho dentro de casa.

Foi dentro de casa que ela encontrou a irmã, foi no marrom do banquinho que ela reconheceu o problema e foi no sacudir das cordas que ela compreendeu o que era a rotina.

Essa é a rotina, um punhado de dias iguais que somados fazem com que a vida mude para sempre, não um dia só, não um banquinho, uma corda e um nó. É a soma e não o ato em si. É a soma.

Nos lábios uma palavra – sim – ela aceitou, ele sorriu, ela sorriu. Eles engravidaram… ela nasceu.

Nas palavras um pedido, queria poder ter feito algo.

 

 

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Discurso de ódio

Eram seis ao todo e eram seis da tarde, nenhum deles era especialmente grande ou forte e mesmo assim eles foram capazes de fazer muito estrago. O coturno do último afundou na lama, o cheiro de suor e fezes já incomodava a todos. Eles estavam cansados, evitaram paus e ferramentas porque tiraria toda a graça, seria muito mais heroico espancar o garoto até a morte. Sempre existiu um senso comum sobre o corpo evacuar após a morte e nenhum deles sabia se era verdade ou não, a julgar pelo cheiro é possível que seja mesmo verdade.

Eles encontraram o garoto durante à tarde, não havia um planejamento, nada premeditado, tudo foi de certa forma improvisado e agora ele está no chão. O rosto distorcido trai um crânio partido, eles haviam combinado que os chutes seriam primeiro na barriga e no peito, só depois seriam no rosto, mas na hora cada pé acertou onde podia e algum imbecil acabou pisando ao invés de chutar. Agora ele esta assim, um ovo de páscoa partido dentro do embrulho.

O mais irônico é que o comportamento de massa é resultado dos feromônios que são expelidos no ar e não da testosterona, é por isso que a polícia usa armas de gás lacrimogêneo como uma forma de conter a multidão.

 

Agora acabou; um deles tenta encontrar graça em mais um chute ou outro, está claro, não encontra. É como insistir em brincar com um carrinho sem rodinhas, tudo passou.

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Seis horas antes, Guilherme saiu para a rua e foi até a cafeteria, queria fazer algo assim, queria parecer uma personagem de série. Guilherme pediu o mais caro, pegou o bolinho mais fotogênico e procurou sentar em um canto, a forma como as mesas estavam dispostas não deram muito caso para a sua narrativa de seriado de todo modo ele encontrou um cantinho legal onde podia ver mais do que podia ser visto.

 

São quatro da tarde e as pernas de Guilherme estão tremendo, ele sabe que está para fazer algo grandioso. A timeline está sem graça hoje, quase nada de especial. Ele checou as próprias fotos, um garoto loiro e de olhos azuis mirava a câmera, alguns likes, algumas pretensas transas, ele estava lá e sabia o que ia acontecer. É isso mesmo, é isso mesmo por que não? Eu posso sim fazer isso, basta olhar para a minha foto, sim eu vou fazer isso.

 

São cinco da tarde, Guilherme deixa o quarto do Hotel rumo à manifestação, está levando um punhado de documentos; passaporte, carteira de motorista do país de origem, uma e outra papelada além do RG original, apesar do pai ser Americano Guilherme tem encontrado dificuldades em conseguir a dupla cidadania, não tem problema. Hoje ele vai fazer provar o valor do seu sangue através do grito.

 

Cinco e trinta da tarde, dois caras no meio da manifestação esbarram em Guilherme, eles vinham desconfiando que aquele garoto não era genuinamente americano, mesmo ele fazendo as saudações e gritando junto com todos os outros algo no sotaque entregou a origem; depois de alguns empurrões e algumas ofensas eles fizeram com que Guilherme pegasse o RG e os documentos.

 

São dez para às seis da tarde, seis homens arrastam o Brasileiro Guilherme de olhos azuis para dentro de um beco, longe da manifestação e afastado dos cinegrafistas…

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Contos

Spoiler Alert!

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Sarah tinha doze anos quando caiu com um tiro na testa, na verdade, dizer que o tiro foi na testa é pura liberdade poética, uma arma calibre doze não é capaz de atirar só na testa, isso acontece por que quando é feito o disparo a bala se dispersa em diversos projéteis de chumbo. De perto o resultado é impressionante, se pedissem a um desinformado para definir a causa da morte ele poderia fazer uma infinidade de suposições – caiu um raio nela? Ela foi devorada por um tubarão? Um trem, ela foi atropelada por um trem?

Não é a primeira vez que isso acontece com alguém daquela idade naquela região. É assim, alguns lugares são assim mesmo. Sarah vivia com a mãe e as irmãs em uma área de risco qualificada como zona de conflito, portanto, morrer com um tiro à queima roupa é uma das coisas mais esperadas para esse cenário. O que é que muda no caso de Sarah? Por qual razão ela merece esse conto?

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A equipe de reportagem levou quatro horas de carro até o centro da capital, após alguns momentos de descanso e um sono rápido foram mais oito horas até a cidade onde a família de Sarah morava. Se adicionarmos o tempo necessário para cada repórter sair do seu país de origem podemos chegar facilmente ao resultado de uma semana em todo o trajeto.

O corpo da menina não estava mais lá, isso é lógico, foi removido e jogado em algum outro lugar, talvez uma fogueira. Na certa o mesmo homem que efetuou o disparo também foi responsável pela remoção dos restos. Não que remover o corpo destroçado de uma garota de doze anos fosse uma tarefa importante, eles já haviam deixado muitos outros para trás pelo caminho mas neste caso era preciso ter atenção aos detalhes. Eles sabiam através de alguns informantes que os repórteres chegariam no começo da semana seguinte  e era uma ótima oportunidade para fazer uma demonstração de força, contudo, o líder sempre acreditou que na hora de ganhar a opinião pública é preciso traçar uma linha entre a força e a barbárie e após uma reunião rápida ficou decidido que corpos de crianças do sexo feminino ultrapassavam essa linha. A menina foi removida e jogada em um latão cheio de gasolina que ardeu e soltou um cheiro horroroso por metade da noite.

A mãe e as irmãs foram silenciadas também, nada seria pior do que ter gente falando merda para a reportagem.

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O link ao vivo que abriu a primeira edição do jornal mostrava uma repórter maquiada e bem hidratada no que parecia ser uma zona mista entre grupos militares e transeuntes civis  – falamos da zona de conflito, aqui são sete da manhã, está bastante quente, como você pode ver existem muitas pessoas nas ruas agora, não existe um cessar fogo oficial mas a presença da nossa equipe parece ter dado coragem para as pessoas saírem um pouco de suas casas.

Já era meio dia, a repórter, agora muito mais cansada e desgastada pelo calor, estava almoçando no seu trailer quando o seu celular vibrou, o seu assistente havia deixado uma mensagem de áudio que ela não conseguia compreender.

São 5 da tarde, os repórteres sobreviventes estão reunidos no saguão principal do hotel, alguns deles ainda têm as mãos tremendo, outros estão tentando demonstrar calma e frieza para acalmar os companheiros. Todos tentam ligar para alguém, falar com alguém ou fazer com que uma mensagem que seja chegue até o seu destino.

A televisão e a internet já estão forradas com as cenas das explosões, foram doze ao todo, algumas bombas foram posicionadas em esquinas, outras foram grudadas diretamente na lataria dos carros de reportagem, uma explosão foi causada por um tiro de bazuca que partiu direto da zona de conflito em direção ao grupo de repórteres.

Os mais puristas parecem em frenesi, como se sempre tivessem esperado pela oportunidade de viverem isso – reportagem de conflito é isso mesmo, você deve compreender, você está bem? Por favor tome mais um chá.

Dez e quinze da noite, em uma cidade localizada a mais de 3500 quilômetros do local onde ocorreram as explosões alguns parentes e amigos se reúnem para organizar um encontro religioso em homenagem as vítimas, dentro da casa encontram-se os parentes de alguns repórteres e alguns outros funcionários do mesmo canal. Um link ao vivo está sendo programado para aquela noite.

Hoje faz cerca de 3 meses do ocorrido e Michele acabou de dar like e fazer um comentário abaixo de um meme que mostra metade de uma van em chamas, na edição o autor do meme trocou o logo do canal de televisão por uma foto de uma das personagens de uma série de tv, quando Michele viu a foto o riso foi instantâneo – hahaha, tomara que morram todos eles – comentou, fazendo alusão à série.  Seu amigo, que gostaria muito de transar com ela, comentou logo abaixo – hahah, porra, o último episódio foi intenso, você viu?

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Todas as imagens são de Joe Sacco, se você ainda não conhece os trabalhos dele deveria procurar agora, vou indicar especialmente o Palestina.

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Cotidiano

Amanhã tem Libertadores

 

Não tem jeito, mesmo que a gente finja que não gosta ou que usa apenas de modo recreativo, sempre, de algum modo, a televisão acaba em um canal onde está passando o Londrina contra o Vila Nova, um a zero para o Vila Nova, gol achado.

É essa mania besta de contar histórias. Não dá para negar, acho que da mesma maneira que dois buracos e um corte acabam formando um rosto em uma lata de lixo, nós ficamos procurando roteiros para esse esporte, a pior parte é que eles existem.

O cara nunca jogou em um time grande, jamais entrou em campo por um elenco de série A e quando ele entrou foi para substituir um dos principais ídolos dos últimos 4 anos, pensa na responsabilidade, além disso a torcida deste time é uma das mais implicantes com novos jogadores, é o caldo perfeito, o cara entra em campo e não perde um jogo, não perdeu ainda, juro para você, o cidadão já entrou em campo mais de dezenove vezes, zero derrotas, cara.

É o encontro que essa mania proporciona, com duas palavras e um completo estranho acaba se tornando seu melhor amigo – e aquele gol hein? – PORRA, TAVA IMPEDIDO – E TAVA MESMO, VOCÊ É LOUCO – ISSO AÊ, LOUC O TÁ AQUELE TÉCNICO – Simples assim, nasceram juntos.

Funciona como o melhor modo de testar um terreno desconhecido, de buscar uma forma de conexão que seja, lógico, isso por que ás vezes o débito demora um pouco para carregar na maquininha  e no intervalo entre a senha e o papelzinho pode caber um – e o Brasil? Será que vai?.

Olha que loucura, tá na cara que essa pergunta é sobre a bola, que coisa, nem tem como fazer uma pergunta destas se não for para falar de futebol, já imaginou? O absurdo que seria falar assim de graça se o Brasil vai ou não vai, disparate.

Você já sabe a resposta, oh, só pontuar – com Jesus e Coutinho, só dá para ir mesmo né. E dá mesmo.

Além do que, se as histórias e o Brasil não empolgarem ainda dá para atuar como bibliotecário do esporte, pesquisador sabe, é só assistir a uma partida de futebol repleta de modelos para creme de barbear e anunciar – isso aê, ruim demais, no Arapiracarense de Mongaguá joga um meia ofensivo muito melhor – e está feito, quem vai pesquisar? Os mais entendidos vão balançar a cabeça dizer – é mesmo, concordo – Todos sem muita confiança mas cheios de sabedoria.

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Foram 22 anos cara, em 22 anos você consegue ser um dos melhores em uma carreira acadêmica, é tempo demais

Dá para deixar um país inteiro cansado de ver o seu rosto se você ficar vinte e dois anos como presidente, nossa, e faz quantos anos mesmo que nós temos o nosso? É mais ou menos por aí? Nem sei mais.

A bola saiu para a lateral e vinte e dois anos depois foi reposta pelas mãos do Moisés, foi assim, jogada na área, uma novidade meio remendada de diversas outras jogadas, algo que no fundo no fundo nem fez tanta diferença, foram só seis gols marcados com essa novidade, seis gols não vencem um campeonato e seis gols não superam uma espera de vinte e dois anos, mas serviram. Seis gols que determinaram um novo estilo de entrar em campo.

Tudo mudou, claro, os patrocínios eram outros, os jogadores, os rostos na arquibancada mas de algum modo essa máquina de olhar para trás que é o futebol sempre fala do futuro, nós comemoramos um passeio ao passado ali em 2016.

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Amanhã a maquininha começará a rodar novamente, tudo pronto, esse Doctor Who que aparece dentro da nossa televisão e instiga. Essa somatória de narrativas impressionantes que garantem, isso é o tempo e isso é o futebol.

Em campo serão 22, como os anos que nós tivemos que esperar. Para os que estarão em casa o tempo médio do começo da transmissão para o final dela é de duas horas.

Na cabeça de cada um todos estes números dizem alguma coisa, como a camisa 30 que o Palmeirense aprendeu a fazer sinal da cruz antes de passar na frente, é isso, quantas bolas enfiadas.

Números dizem tudo e não dizem nada, se tivermos birra com o jogador os números dele podem ser os maiores do mundo, até mesmo ser a maior contratação e o maior salário, não serve – se dependesse de mim, esse aí não ficaria nem na reserva – dá desgosto.

Agora se o cara é bacana, se o porte dá orgulho e em campo ele levanta grama, pode nem fazer gol, pode ser um pé torto tal curipira que não tem jeito – esse técnico come o que? Deixar o cara no banco?? – são nossos números.

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É o nosso jeito de fazer sentido, poxa, pensa em quanta grana isso faz girar, e ela gira até ficar estacionada no bolso de algum merda que nem assiste futebol, é isso, isso acontece mas olha só, essa bola no travessão, puta merda cara se entra… O tempo para, vivemos no se.  Da gosto, é viver de hipóteses. Se a única coisa que importasse fosse o resultado concreto, o melhor e o pior, quem perdeu e quem ganhou, rapidinho o esporte perderia a graça, ninguém ia assistir. É essa possibilidade, esse desejo latente que traz o sobressalto, a potência está toda no quase, quando acontece, honestamente, às vezes, raras, dá até um desgosto. Por que já foi e foi como mostrou que foi, olha que chato, o mesmo vale para o fracasso, quando o time enfim é derrotado dá uma angústia, não é por que perdeu, é por que fomos privados do se, do o que, do quase… É assim, tempo em suspensão, viver do “mas será”.

Amanhã tem Palmeiras, o jogo mais importante do ano até aqui… Para quem gosta aproveite esse momento, o futebol é, na verdade, esse momento da espera. Vida em suspensão.

Reprodução/Twitter oficial de Edmundo

Reprodução/Twitter oficial de Edmundo

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Contos

Na praia

O exército Brasileiro é equipado com um fuzil de repetição de fabricação nacional. Diante desta arma a lataria de um carro popular é absolutamente insignificante, a bala poderia atravessar a porta e encontrar a carne e os músculos localizados dentro do automóvel.

Se disparada a uma distância média essa mesma arma é indiscutivelmente letal mesmo para pessoas equipadas com colete a prova de balas, existem casos em que essa arma consegue atravessar inclusive carros blindados, imagine o que ela foi capaz de fazer com o crânio do menino negro.

A sensação de contexto é essencial para que possamos dar alguma leitura coerente do que acontece, quando você observa uma praia espera encontrar nela volúpia e sensualidade.

O contexto da praia é futevôlei, são biquínis miúdos, correria e pessoas sorrindo, se encerra nesse termo praia todo um universo de experiências que estão relacionadas ao bem estar, talvez o gosto de sorvete já venha na boca de uns, ou o estresse do trânsito, praia é local de gente, de soldados?

Vê-los na praia instiga a contradição, parece um daqueles quadros que o artista responsável resolveu brincar com a ilusão de ótica e desenhou uma escada sem fim, você segue ela com os olhos e o ultimo degrau se reencontra ao primeiro dando uma pequena torção no seu cognitivo, você por um instante fica sem entender exatamente o que aconteceu e lá está a escada começada novamente, ver um soldado de guarda na praia é como assistir a uma apresentação do absurdo.

A maioria deles faz a ronda de dois em dois, são raros os trios e é impossível encontrar um quarteto.

Você já reparou como os shoppings são construídos tão rápido? Um dia o terreno estava lá cheio de lojas fechadas, espaços vazios e casas acabadas, e então em um domingo quando você sai para comprar ração para o cachorro lá está o shopping, diversos carros entrando e saindo dele, jovens se reunindo na porta, é impressionante, a construção dessa coisa deveria fazer muita bagunça e muito barulho, como é possível?

Quem estacionou este tanque na beira da praia? E quero dizer, para que? Obviamente um traficante não vai trocar tiros com o exército assim em campo aberto apenas por puro senso de batalha, certamente não tiros o bastante que justifiquem a presença de um tanque de guerra na beira da praia, esse tanque não está aqui para disparar balas contra bandidos.

O tanque, os soldados, o fuzis e os coletes a prova de balas estão todos aqui para passar uma mensagem agora falta saber ler qual é, será para nós, será para quem? “Os bandidos”, esse termo genérico que neste contexto é usado sobretudo para englobar quem? Pergunte-se, será? Pergunte-se.

Quando o garoto desceu da favela ele poderia prever o que estava para acontecer? É complicado, tudo isso se mistura e se dissolve de forma confusa, garotos, fuzis, a praia, a fome, o iphone e o trabalho.

Ela saiu do Shopping dentro de uma Ford Ka novo e completo, tudo estava jogado no porta-malas, não tinha muita pressa para chegar em casa, nada de muito importante para o dia de hoje. Os faróis, os caminhos e as sinalizações estavam todas lá, seu GPS estava lá, então o que poderia tê-la avisado sobre essa abrupta quebra na sua rotina?

O próximo farol era só um farol, programado para acender três luzes que em si não significam nada, não existe qualquer motivo especial para elas estarem onde estão e atuarem como atuam se não fosse a convenção estabelecida entre todos os que olham para aquelas luzes, assim como um dia as estrelas foram usadas.

A moto que parou do lado do Ford Ka não tinha placa, a arma sacada não tinha numeração, as palavras de ódio não tinham dono, tudo naquele dia parecia funcionar como um estranho teatro pré-estabelecido que vinha sendo ensaiado havia muito tempo.

Em quanto tempo eles conseguem levantar um shopping center?

Após um susto ela procurou em vão pela bolsa no branco de trás e percebeu que segurava o ar, nada, nada, um jogo de mimica definitivo, pelo espelho, uma palavra, quatro letras, nada. Não tenho nada.

Ele disparou uma bala sem dono.

Duas balas foram disparadas naquela oportunidade, uma saída de um revolver calibre 38 de numeração riscada, a outra partiu de um fuzil de uso do exército brasileiro.

Apenas uma pessoa deu entrada no hospital graças a essa cena, foi levada as pressas sangrando com um ferimento grave no ombro o que rendeu uma publicação da melhor amiga na timeline, por favor, doem sangue no hospital tal do tal, rashtag forçamiga, rashtag jesus no comando.

Existe uma mensagem implícita nessa atuação, tem de haver alguma coisa que possa ser interpretado, algo que deve ser lido disso, que leitura é essa, o que isso tudo quer dizer?

A questão é, quando um tanque de guerra é estacionado na beira da praia, quem está passando a mensagem para quem?

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