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Pratos sujos

Nas mãos um lápis. Ao ouvir o seu nome ela se esticou com pressa e levantou o braço – presente – apenas isso.

Na rua a luz desce em um branco sujo, o reboco difuso e feito de manchas escuras relembra que tem mofo e o mofo de que está vivo. O mundo se torna composto por cantos sem sombras. A falta de sombras em dias frios passa a impressão de que elas estão na verdade dentro de você.

A água sai da torneira em mordidas, mesmo a porcelana parece gemer e se contorcer ao toque do detergente, a gordura, teimosa, escorrega pelo encanamento.

Existe fumaça lá fora, os latidos vêm acompanhados pelo apito do caminhão que manobra, são três homens ao todo, um dirige e dois correm, lançando os sacos de lixo no compartimento de trás.

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– Cuidado com a graxa – ela se lembrou de ouvir isso quando voltava para casa, na ocasião a irmã mais velha preveniu, muito mais por necessidade de parecer madura do que por impulso maternal. A pequena ficou esperando fora do bar enquanto a maior buscava a chave de casa.

Hoje é só o metal limpo e bem pintado. Talvez nem tenha graxa, talvez ele nunca tivesse e o aviso foi por pura besteira ou carinho, ela não saberia dizer.

É isso que ganha o nome de rotina, um dia comum seguido por outro dia comum que com a soma de todos eles, e são muitos, transformam a realidade completamente. Quem acredita que a rotina é um punhado de dias todos iguais deve ser uma pessoa de sorte.

Nas mãos uma bola, a rede de vôlei não faz muita diferença mesmo por que nenhum delas salta, ou sequer têm altura, para fazer um bloqueio, está lá por convenção da partida. A bola sobe de um lado para o outro, lenta, preguiçosa, para o alto, recebe e devolve; alta, suja, recebe e devolve. Em algum momento uma delas comete um erro, um deslize, pode ser uma tentativa de se antecipar ou um simples descuido com a postura e pronto, a bola toca no chão. Ponto para o outro lado.

E basta isso, as famílias seguem um apoio medido, cronometrado. Os comentários são ensaiados, os gritos de apoio estão em concordância, mesmo as reclamações e as briguinhas exaltadas entre elas leva em conta um acordo pré-estabelecido. No roteiro estão as linhas do chão, a rede, a bola, as meninas e a grade cinza.

Nãos mãos um prato sujo e a torneira aberta. O detergente deve ser guardado de cabeça para baixo para que ele possa descer até a tampinha e aguardar o momento de ser usado. O ralinho da pia fica sempre entupido com os restos de comida. Um dos momentos mais nojentos é justamente ter que retirar ele e jogar esses restos no lixo, algumas vezes, por puro capricho, ela deixa o caminho livre para a comida descer direto pelo cano – vai entupir – diria a mais velha, mas não entope.

Nas mãos uma prece, a vela está posicionada em frete ao túmulo, em dias frios o barro ganha vigor, se impõe e mancha a sola dos tênis e o caminho dentro de casa.

Foi dentro de casa que ela encontrou a irmã, foi no marrom do banquinho que ela reconheceu o problema e foi no sacudir das cordas que ela compreendeu o que era a rotina.

Essa é a rotina, um punhado de dias iguais que somados fazem com que a vida mude para sempre, não um dia só, não um banquinho, uma corda e um nó. É a soma e não o ato em si. É a soma.

Nos lábios uma palavra – sim – ela aceitou, ele sorriu, ela sorriu. Eles engravidaram… ela nasceu.

Nas palavras um pedido, queria poder ter feito algo.

 

 

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Discurso de ódio

Eram seis ao todo e eram seis da tarde, nenhum deles era especialmente grande ou forte e mesmo assim eles foram capazes de fazer muito estrago. O coturno do último afundou na lama, o cheiro de suor e fezes já incomodava a todos. Eles estavam cansados, evitaram paus e ferramentas porque tiraria toda a graça, seria muito mais heroico espancar o garoto até a morte. Sempre existiu um senso comum sobre o corpo evacuar após a morte e nenhum deles sabia se era verdade ou não, a julgar pelo cheiro é possível que seja mesmo verdade.

Eles encontraram o garoto durante à tarde, não havia um planejamento, nada premeditado, tudo foi de certa forma improvisado e agora ele está no chão. O rosto distorcido trai um crânio partido, eles haviam combinado que os chutes seriam primeiro na barriga e no peito, só depois seriam no rosto, mas na hora cada pé acertou onde podia e algum imbecil acabou pisando ao invés de chutar. Agora ele esta assim, um ovo de páscoa partido dentro do embrulho.

O mais irônico é que o comportamento de massa é resultado dos feromônios que são expelidos no ar e não da testosterona, é por isso que a polícia usa armas de gás lacrimogêneo como uma forma de conter a multidão.

 

Agora acabou; um deles tenta encontrar graça em mais um chute ou outro, está claro, não encontra. É como insistir em brincar com um carrinho sem rodinhas, tudo passou.

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Seis horas antes, Guilherme saiu para a rua e foi até a cafeteria, queria fazer algo assim, queria parecer uma personagem de série. Guilherme pediu o mais caro, pegou o bolinho mais fotogênico e procurou sentar em um canto, a forma como as mesas estavam dispostas não deram muito caso para a sua narrativa de seriado de todo modo ele encontrou um cantinho legal onde podia ver mais do que podia ser visto.

 

São quatro da tarde e as pernas de Guilherme estão tremendo, ele sabe que está para fazer algo grandioso. A timeline está sem graça hoje, quase nada de especial. Ele checou as próprias fotos, um garoto loiro e de olhos azuis mirava a câmera, alguns likes, algumas pretensas transas, ele estava lá e sabia o que ia acontecer. É isso mesmo, é isso mesmo por que não? Eu posso sim fazer isso, basta olhar para a minha foto, sim eu vou fazer isso.

 

São cinco da tarde, Guilherme deixa o quarto do Hotel rumo à manifestação, está levando um punhado de documentos; passaporte, carteira de motorista do país de origem, uma e outra papelada além do RG original, apesar do pai ser Americano Guilherme tem encontrado dificuldades em conseguir a dupla cidadania, não tem problema. Hoje ele vai fazer provar o valor do seu sangue através do grito.

 

Cinco e trinta da tarde, dois caras no meio da manifestação esbarram em Guilherme, eles vinham desconfiando que aquele garoto não era genuinamente americano, mesmo ele fazendo as saudações e gritando junto com todos os outros algo no sotaque entregou a origem; depois de alguns empurrões e algumas ofensas eles fizeram com que Guilherme pegasse o RG e os documentos.

 

São dez para às seis da tarde, seis homens arrastam o Brasileiro Guilherme de olhos azuis para dentro de um beco, longe da manifestação e afastado dos cinegrafistas…

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Contos

Spoiler Alert!

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Sarah tinha doze anos quando caiu com um tiro na testa, na verdade, dizer que o tiro foi na testa é pura liberdade poética, uma arma calibre doze não é capaz de atirar só na testa, isso acontece por que quando é feito o disparo a bala se dispersa em diversos projéteis de chumbo. De perto o resultado é impressionante, se pedissem a um desinformado para definir a causa da morte ele poderia fazer uma infinidade de suposições – caiu um raio nela? Ela foi devorada por um tubarão? Um trem, ela foi atropelada por um trem?

Não é a primeira vez que isso acontece com alguém daquela idade naquela região. É assim, alguns lugares são assim mesmo. Sarah vivia com a mãe e as irmãs em uma área de risco qualificada como zona de conflito, portanto, morrer com um tiro à queima roupa é uma das coisas mais esperadas para esse cenário. O que é que muda no caso de Sarah? Por qual razão ela merece esse conto?

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A equipe de reportagem levou quatro horas de carro até o centro da capital, após alguns momentos de descanso e um sono rápido foram mais oito horas até a cidade onde a família de Sarah morava. Se adicionarmos o tempo necessário para cada repórter sair do seu país de origem podemos chegar facilmente ao resultado de uma semana em todo o trajeto.

O corpo da menina não estava mais lá, isso é lógico, foi removido e jogado em algum outro lugar, talvez uma fogueira. Na certa o mesmo homem que efetuou o disparo também foi responsável pela remoção dos restos. Não que remover o corpo destroçado de uma garota de doze anos fosse uma tarefa importante, eles já haviam deixado muitos outros para trás pelo caminho mas neste caso era preciso ter atenção aos detalhes. Eles sabiam através de alguns informantes que os repórteres chegariam no começo da semana seguinte  e era uma ótima oportunidade para fazer uma demonstração de força, contudo, o líder sempre acreditou que na hora de ganhar a opinião pública é preciso traçar uma linha entre a força e a barbárie e após uma reunião rápida ficou decidido que corpos de crianças do sexo feminino ultrapassavam essa linha. A menina foi removida e jogada em um latão cheio de gasolina que ardeu e soltou um cheiro horroroso por metade da noite.

A mãe e as irmãs foram silenciadas também, nada seria pior do que ter gente falando merda para a reportagem.

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O link ao vivo que abriu a primeira edição do jornal mostrava uma repórter maquiada e bem hidratada no que parecia ser uma zona mista entre grupos militares e transeuntes civis  – falamos da zona de conflito, aqui são sete da manhã, está bastante quente, como você pode ver existem muitas pessoas nas ruas agora, não existe um cessar fogo oficial mas a presença da nossa equipe parece ter dado coragem para as pessoas saírem um pouco de suas casas.

Já era meio dia, a repórter, agora muito mais cansada e desgastada pelo calor, estava almoçando no seu trailer quando o seu celular vibrou, o seu assistente havia deixado uma mensagem de áudio que ela não conseguia compreender.

São 5 da tarde, os repórteres sobreviventes estão reunidos no saguão principal do hotel, alguns deles ainda têm as mãos tremendo, outros estão tentando demonstrar calma e frieza para acalmar os companheiros. Todos tentam ligar para alguém, falar com alguém ou fazer com que uma mensagem que seja chegue até o seu destino.

A televisão e a internet já estão forradas com as cenas das explosões, foram doze ao todo, algumas bombas foram posicionadas em esquinas, outras foram grudadas diretamente na lataria dos carros de reportagem, uma explosão foi causada por um tiro de bazuca que partiu direto da zona de conflito em direção ao grupo de repórteres.

Os mais puristas parecem em frenesi, como se sempre tivessem esperado pela oportunidade de viverem isso – reportagem de conflito é isso mesmo, você deve compreender, você está bem? Por favor tome mais um chá.

Dez e quinze da noite, em uma cidade localizada a mais de 3500 quilômetros do local onde ocorreram as explosões alguns parentes e amigos se reúnem para organizar um encontro religioso em homenagem as vítimas, dentro da casa encontram-se os parentes de alguns repórteres e alguns outros funcionários do mesmo canal. Um link ao vivo está sendo programado para aquela noite.

Hoje faz cerca de 3 meses do ocorrido e Michele acabou de dar like e fazer um comentário abaixo de um meme que mostra metade de uma van em chamas, na edição o autor do meme trocou o logo do canal de televisão por uma foto de uma das personagens de uma série de tv, quando Michele viu a foto o riso foi instantâneo – hahaha, tomara que morram todos eles – comentou, fazendo alusão à série.  Seu amigo, que gostaria muito de transar com ela, comentou logo abaixo – hahah, porra, o último episódio foi intenso, você viu?

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Todas as imagens são de Joe Sacco, se você ainda não conhece os trabalhos dele deveria procurar agora, vou indicar especialmente o Palestina.

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Cotidiano

Amanhã tem Libertadores

 

Não tem jeito, mesmo que a gente finja que não gosta ou que usa apenas de modo recreativo, sempre, de algum modo, a televisão acaba em um canal onde está passando o Londrina contra o Vila Nova, um a zero para o Vila Nova, gol achado.

É essa mania besta de contar histórias. Não dá para negar, acho que da mesma maneira que dois buracos e um corte acabam formando um rosto em uma lata de lixo, nós ficamos procurando roteiros para esse esporte, a pior parte é que eles existem.

O cara nunca jogou em um time grande, jamais entrou em campo por um elenco de série A e quando ele entrou foi para substituir um dos principais ídolos dos últimos 4 anos, pensa na responsabilidade, além disso a torcida deste time é uma das mais implicantes com novos jogadores, é o caldo perfeito, o cara entra em campo e não perde um jogo, não perdeu ainda, juro para você, o cidadão já entrou em campo mais de dezenove vezes, zero derrotas, cara.

É o encontro que essa mania proporciona, com duas palavras e um completo estranho acaba se tornando seu melhor amigo – e aquele gol hein? – PORRA, TAVA IMPEDIDO – E TAVA MESMO, VOCÊ É LOUCO – ISSO AÊ, LOUC O TÁ AQUELE TÉCNICO – Simples assim, nasceram juntos.

Funciona como o melhor modo de testar um terreno desconhecido, de buscar uma forma de conexão que seja, lógico, isso por que ás vezes o débito demora um pouco para carregar na maquininha  e no intervalo entre a senha e o papelzinho pode caber um – e o Brasil? Será que vai?.

Olha que loucura, tá na cara que essa pergunta é sobre a bola, que coisa, nem tem como fazer uma pergunta destas se não for para falar de futebol, já imaginou? O absurdo que seria falar assim de graça se o Brasil vai ou não vai, disparate.

Você já sabe a resposta, oh, só pontuar – com Jesus e Coutinho, só dá para ir mesmo né. E dá mesmo.

Além do que, se as histórias e o Brasil não empolgarem ainda dá para atuar como bibliotecário do esporte, pesquisador sabe, é só assistir a uma partida de futebol repleta de modelos para creme de barbear e anunciar – isso aê, ruim demais, no Arapiracarense de Mongaguá joga um meia ofensivo muito melhor – e está feito, quem vai pesquisar? Os mais entendidos vão balançar a cabeça dizer – é mesmo, concordo – Todos sem muita confiança mas cheios de sabedoria.

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Foram 22 anos cara, em 22 anos você consegue ser um dos melhores em uma carreira acadêmica, é tempo demais

Dá para deixar um país inteiro cansado de ver o seu rosto se você ficar vinte e dois anos como presidente, nossa, e faz quantos anos mesmo que nós temos o nosso? É mais ou menos por aí? Nem sei mais.

A bola saiu para a lateral e vinte e dois anos depois foi reposta pelas mãos do Moisés, foi assim, jogada na área, uma novidade meio remendada de diversas outras jogadas, algo que no fundo no fundo nem fez tanta diferença, foram só seis gols marcados com essa novidade, seis gols não vencem um campeonato e seis gols não superam uma espera de vinte e dois anos, mas serviram. Seis gols que determinaram um novo estilo de entrar em campo.

Tudo mudou, claro, os patrocínios eram outros, os jogadores, os rostos na arquibancada mas de algum modo essa máquina de olhar para trás que é o futebol sempre fala do futuro, nós comemoramos um passeio ao passado ali em 2016.

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Amanhã a maquininha começará a rodar novamente, tudo pronto, esse Doctor Who que aparece dentro da nossa televisão e instiga. Essa somatória de narrativas impressionantes que garantem, isso é o tempo e isso é o futebol.

Em campo serão 22, como os anos que nós tivemos que esperar. Para os que estarão em casa o tempo médio do começo da transmissão para o final dela é de duas horas.

Na cabeça de cada um todos estes números dizem alguma coisa, como a camisa 30 que o Palmeirense aprendeu a fazer sinal da cruz antes de passar na frente, é isso, quantas bolas enfiadas.

Números dizem tudo e não dizem nada, se tivermos birra com o jogador os números dele podem ser os maiores do mundo, até mesmo ser a maior contratação e o maior salário, não serve – se dependesse de mim, esse aí não ficaria nem na reserva – dá desgosto.

Agora se o cara é bacana, se o porte dá orgulho e em campo ele levanta grama, pode nem fazer gol, pode ser um pé torto tal curipira que não tem jeito – esse técnico come o que? Deixar o cara no banco?? – são nossos números.

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É o nosso jeito de fazer sentido, poxa, pensa em quanta grana isso faz girar, e ela gira até ficar estacionada no bolso de algum merda que nem assiste futebol, é isso, isso acontece mas olha só, essa bola no travessão, puta merda cara se entra… O tempo para, vivemos no se.  Da gosto, é viver de hipóteses. Se a única coisa que importasse fosse o resultado concreto, o melhor e o pior, quem perdeu e quem ganhou, rapidinho o esporte perderia a graça, ninguém ia assistir. É essa possibilidade, esse desejo latente que traz o sobressalto, a potência está toda no quase, quando acontece, honestamente, às vezes, raras, dá até um desgosto. Por que já foi e foi como mostrou que foi, olha que chato, o mesmo vale para o fracasso, quando o time enfim é derrotado dá uma angústia, não é por que perdeu, é por que fomos privados do se, do o que, do quase… É assim, tempo em suspensão, viver do “mas será”.

Amanhã tem Palmeiras, o jogo mais importante do ano até aqui… Para quem gosta aproveite esse momento, o futebol é, na verdade, esse momento da espera. Vida em suspensão.

Reprodução/Twitter oficial de Edmundo

Reprodução/Twitter oficial de Edmundo

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Contos

Na praia

O exército Brasileiro é equipado com um fuzil de repetição de fabricação nacional. Diante desta arma a lataria de um carro popular é absolutamente insignificante, a bala poderia atravessar a porta e encontrar a carne e os músculos localizados dentro do automóvel.

Se disparada a uma distância média essa mesma arma é indiscutivelmente letal mesmo para pessoas equipadas com colete a prova de balas, existem casos em que essa arma consegue atravessar inclusive carros blindados, imagine o que ela foi capaz de fazer com o crânio do menino negro.

A sensação de contexto é essencial para que possamos dar alguma leitura coerente do que acontece, quando você observa uma praia espera encontrar nela volúpia e sensualidade.

O contexto da praia é futevôlei, são biquínis miúdos, correria e pessoas sorrindo, se encerra nesse termo praia todo um universo de experiências que estão relacionadas ao bem estar, talvez o gosto de sorvete já venha na boca de uns, ou o estresse do trânsito, praia é local de gente, de soldados?

Vê-los na praia instiga a contradição, parece um daqueles quadros que o artista responsável resolveu brincar com a ilusão de ótica e desenhou uma escada sem fim, você segue ela com os olhos e o ultimo degrau se reencontra ao primeiro dando uma pequena torção no seu cognitivo, você por um instante fica sem entender exatamente o que aconteceu e lá está a escada começada novamente, ver um soldado de guarda na praia é como assistir a uma apresentação do absurdo.

A maioria deles faz a ronda de dois em dois, são raros os trios e é impossível encontrar um quarteto.

Você já reparou como os shoppings são construídos tão rápido? Um dia o terreno estava lá cheio de lojas fechadas, espaços vazios e casas acabadas, e então em um domingo quando você sai para comprar ração para o cachorro lá está o shopping, diversos carros entrando e saindo dele, jovens se reunindo na porta, é impressionante, a construção dessa coisa deveria fazer muita bagunça e muito barulho, como é possível?

Quem estacionou este tanque na beira da praia? E quero dizer, para que? Obviamente um traficante não vai trocar tiros com o exército assim em campo aberto apenas por puro senso de batalha, certamente não tiros o bastante que justifiquem a presença de um tanque de guerra na beira da praia, esse tanque não está aqui para disparar balas contra bandidos.

O tanque, os soldados, o fuzis e os coletes a prova de balas estão todos aqui para passar uma mensagem agora falta saber ler qual é, será para nós, será para quem? “Os bandidos”, esse termo genérico que neste contexto é usado sobretudo para englobar quem? Pergunte-se, será? Pergunte-se.

Quando o garoto desceu da favela ele poderia prever o que estava para acontecer? É complicado, tudo isso se mistura e se dissolve de forma confusa, garotos, fuzis, a praia, a fome, o iphone e o trabalho.

Ela saiu do Shopping dentro de uma Ford Ka novo e completo, tudo estava jogado no porta-malas, não tinha muita pressa para chegar em casa, nada de muito importante para o dia de hoje. Os faróis, os caminhos e as sinalizações estavam todas lá, seu GPS estava lá, então o que poderia tê-la avisado sobre essa abrupta quebra na sua rotina?

O próximo farol era só um farol, programado para acender três luzes que em si não significam nada, não existe qualquer motivo especial para elas estarem onde estão e atuarem como atuam se não fosse a convenção estabelecida entre todos os que olham para aquelas luzes, assim como um dia as estrelas foram usadas.

A moto que parou do lado do Ford Ka não tinha placa, a arma sacada não tinha numeração, as palavras de ódio não tinham dono, tudo naquele dia parecia funcionar como um estranho teatro pré-estabelecido que vinha sendo ensaiado havia muito tempo.

Em quanto tempo eles conseguem levantar um shopping center?

Após um susto ela procurou em vão pela bolsa no branco de trás e percebeu que segurava o ar, nada, nada, um jogo de mimica definitivo, pelo espelho, uma palavra, quatro letras, nada. Não tenho nada.

Ele disparou uma bala sem dono.

Duas balas foram disparadas naquela oportunidade, uma saída de um revolver calibre 38 de numeração riscada, a outra partiu de um fuzil de uso do exército brasileiro.

Apenas uma pessoa deu entrada no hospital graças a essa cena, foi levada as pressas sangrando com um ferimento grave no ombro o que rendeu uma publicação da melhor amiga na timeline, por favor, doem sangue no hospital tal do tal, rashtag forçamiga, rashtag jesus no comando.

Existe uma mensagem implícita nessa atuação, tem de haver alguma coisa que possa ser interpretado, algo que deve ser lido disso, que leitura é essa, o que isso tudo quer dizer?

A questão é, quando um tanque de guerra é estacionado na beira da praia, quem está passando a mensagem para quem?

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Filmes, séries e livros

Você deve assistir “Até o último homem” e entender o que é um bom filme para todos os públicos

One more… Please give one more…

Existem duas leituras possíveis para este filme, você pode olhar para ele como uma produção ambiciosa dirigida pelo Mel Gibson, se o Mel Gibson precisa mesmo de apresentações aqui vai, ele estrelou Coração Valente (1995) e dirigiu o polêmico A paixão de Cristo (2004), agora, é possível assistir “Até o último homem” como uma história bem contada e se emocionar com o fato do filme ser baseado em fatos reais e com um final muito satisfatório.

Andrew Garfield estava fora do radar de todo cinéfilo quando interpretou o Homem Aranha, contudo, após atuar como Padre Rodrigues no maravilhoso Silêncio dirigido pelo Scorsese  fica impossível não levar este ator a sério, afinal, o Scorsese não daria o papel principal de um dos seus filmes mais queridos se este ator não fosse muito capaz.

Assim como foi no filme do Scorsese aqui Andrew incorpora o papel de um homem religioso, diferente da outra vez neste ele que se alista no exército para atuar como médico, a principio o roteiro não apresenta nenhuma novidade mas quando você descobre que esse homem se nega a pegar em armas e que tudo é baseado em fatos reais o filme ganha um tom novo.

Gibson abre o filme com uma cena de batalha que não peca em nenhum momento,

Com a mesma competência que ele mostrou em A Paixão de Cristo, o diretor repete a paciência e a persistência em mostrar os horrores da violência de perto, existem muitas feridas abertas nas cenas de batalha e não pense que você verá apenas fumaça e aquela cacofonia habitual dos filmes menos compromissados.

Gibson pretende demonstrar a violência e faz isso com cenas bem ensaiadas de dor e muitos corpos expostos, quando uma bomba explodir perto de um soldado ele não vira uma nuvem de fumaça, ele vira entranhas e pernas voando, nada que se pareça ao estilo gore ou sangue apenas pelo prazer do sangue, Mel tem uma mensagem, uma guerra faz feridos e os feridos são assim, para os de estomago mais sensível Mel não mantém a violência por muito tempo e mesmo a sua crueza é moderada.

Após a cena inicial Mel Gibson segura o ritmo do filme para apresentar Desmond T. Doss (interpretado na infância por Darcy Bryce e adulto por Andrew Garfield), uma criança formada em um lar desfeito, filho de um ex combatente da primeira guerra mundial e uma dona de casa, Desmond e o irmão são criados neste lar habituados a constante violência do pai, Hugo Weaving, que atuou no filme O Hobbit e Capitão América faz um papel muito sólido aqui, o trabalho de voz e dos gestos é muito convincente.

O primeiro ato funciona como um filme de romance despretensioso, Desmond conhece a enfermeira Dorothy Schutte (Teresa Palmer) e a aproximação do casal se dá de forma natural, o contra ponto deste ato é a violência assombrando Desmond, como pano de fundo para o casal existe a ameaça da guerra, é importante frisar que os recursos de narrativa utilizados neste primeiro ato são muito interessantes e a constante presença da guerra é bem utilizada, seja por uma cicatriz na pele de um veterano ou cenas de violência implícita em casa. É gostoso assistir a um filme que não fica te explicando a todo momento o que está acontecendo e te permite interpretar as cenas.

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A partir do segundo ato a percepção de Desmond a respeito da sua realidade muda completamente, é possível enxergar o arco da personagem caminhando para um visão mais madura mas nem por isso menos idealista, em alguns momentos você pode incorrer no erro de acreditar que toda a fibra de Desmond está enraizada unicamente na teimosia, afinal, como um soldado iria para a guerra se recusando a sequer tocar em uma arma? De todo modo, com o desenvolver das cenas fica claro de onde ele tira seu vigor e todo o desenvolver do filme ganha cores novas, ao perceber que Desmond não se trata de um pacifista, ele é um soldado, um soldado que se nega a matar.

No quartel somos apresentados a diversos outras personagens, existe clássico sargento escandaloso que exige respeito, disciplina e molda seus soldados como ferro quente, na base da marretada. Existem os amigos e os desafetos, Gibson foi confiante o bastante para não tentar reinventar a roda aqui.

Como acontecia nas cenas românticas, Mel Gibson não tentou fazer um filme autocongratulatório ou prepotente, as cenas do Quartel e todos os problemas envolvendo essa parte do filme são tratadas de modo claro, com pouca exposição e sem aqueles roteiros truncados, cheios de filosofias e dificuldades, tudo acontece de maneira simples para entender e é possível acompanhar o estado de espirito de todas as personagens já na superfície.

Com o desenvolver do roteiro o público é convidado a refletir sobre quem são os antagonistas da história e é isso que faz deste filme tão prazeroso e torna a sua história acessível para todos, para os que adoram filmes de guerra terão suas cenas de heroísmo, para quem gosta de filmes românticos vão encontrar cenas confortáveis como tomar chá vendo série e para quem gosta de História, aquela com H e feitos intrigantes, vai encontrar uma boa prosa.

A cena final é puro Mel Gibson, mais ambiciosa e explicita essa cena acabou transformando o soldado Desmond em algo além do que ele já era, para mim é uma cena que sobra e eu teria cortado ela fora do filme, teria cortado pois os feitos do personagem no decorrer da história já são o bastante para torna-lo especial, não havia nenhuma necessidade de uma redenção final, de todo modo, ainda assim não diminui o valor do filme. Após a última cena são mostrados relatos das pessoas reais e essa última parte é muito divertida e é um ótimo modo para encerrar o relato.

Até o último homem é um filme sobre a segunda guerra mundial que se destaca do grande mar de filmes com o mesmo tema, é um bom filme sem ser cabeçudo e é acessível sem cair no besteirol. Vale a pena assistir, para os que já viram e concordam ou discordam deixem o seu comentário, seja aqui ou na publicação onde viram este link. Obrigado.

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Filmes, séries e livros

Get Out (Corra!)

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Get out é um filme de terror lançado em 2017,  o filme foi escrito e dirigido por Jordan Peele (diretor que antes desta produção trabalhava com comédia) no filme também participam os atores Daniel Kaluuya e a atrizes Alison Willians e Catherine Keener. Kaluuya é muito conhecido do público Brasileiro pelo episódio estrelado por ele de Black Mirror e a atriz  Catherine Kenner tem participações em diversos outros filmes conhecidos entre eles Into the Wild (Na Natureza Selvagem – Dirigido pelo Sean Penn).

Get out conta a história de um casal de namorados que resolve visitar os pais da moça em uma pequena cidade do interior Americano, uma premissa  bem simples que só funciona por que a primeira cena do filme é muito bem dirigida e abre com muito suspense, além de prometer cenas mais intensas.

Embora o filme seja bem dirigido e a fotografia não prejudique em nada as cenas, o primeiro ato é repetitivo e até clichezendo, as poucas cenas que se destacam da fórmula “namorado inseguro com medo dos pais da namorada” acabam sendo os poucos momentos de tensão que não sustentam com eficienta toda a exposição que o diretor deixou para este inicio.

De todo modo existe um plano sequência muito interessante que é no momento em que Chris (o mocinho) é apresentado aos pais da mocinha, aqui o diretor posiciona a câmera em visões distantes e planos simétricos causando um estranho senso de ordem que destoa com o diálogo do Pai, a cena se desenvolve com pequenas doses de desconforto quem funcionam muito bem para devolver a nós o interesse pelo filme, honestamente quase perdidos com as primeiras cenas.

É preciso dizer que o roteiro está sustentado pela relação entre público e protagonista, onde quando um não sabe de alguma coisa o outro também não sabe, isso é uma linguagem quase padrão em filmes de terror/suspense e aqui não prejudica as cenas, contudo,  após a apresentação das personagens principais o clima do filme acaba ficando monótono.

Chris é apresentado a todo momento para situações confusas e inquietantes mas que acabam não funcionando como deveriam, em algumas cenas eu honestamente fiquei mais irritado com o ritmo lendo e indeciso da cena do que nervoso com o que poderia acontecer com a personagem principal.

Embora o mocinho seja carismático e o trabalho do ator tenha sido muito bem feito, principalmente as expressões, o cara é uma máquina de criar caras e bocas, os problemas apresentados na maioria das situações não me prenderam, em uma cena específica na festa onde Cris resolve tirar uma foto de outra personagem o filme acaba entregando um spoiler de si mesmo que não ficou nada bom além de estabelecer uma alternativa muito pouco criativa.

Filmes de terror são problemáticos, é preciso colocar o público em sintonia com o que acontece na tela de modo que pedra fundamental para todo filme de terror é que o espectador acredite no que está acontecendo, isso é primordial, o público deve acreditar no que está acontecendo, infelizmente em Get out toda a trama é sustentada sobre uma premissa que se torna mais ridícula com o desenvolver do filme.

Para piorar, as cenas de suspense são entrecortadas por cenas de alivio cômico francamente saídas de programas de sketch (local onde o Diretor tem maior segurança). Você acaba dando risada, o ritmo se quebra e o filme volta a estaca zero no quesito “manter o público na ponta da cadeira de nervosismo”.

No último ato, quando todo o clima já está estabelecido e nós já sabemos quem, que, o que, quando, como e o por que de toda a trama, o filme acaba caindo em uma exposição absolutamente contra clímax, é exatamente isso o que acontece, a personagem é sentada em uma cadeira e na frente dela uma televisão mostra passo-a-passo do que foi feito, por que está sendo feito, como será feito, quando será feito e por quem está sendo feito. É como aqueles desenhos antigos em que o vilão prende o herói e antes de desintegrar a cabeça dele com um raio laser resolve, a título de autopromoção, contar o seu plano secreto. Ruim, não funciona, neste momento foi quando eu disse – ok, é isso, que filme ruim – mas aí, para a minha surpresa, foi quando o filme ficou legal.

Nas cenas finais o filme deixa de se levar tão a sério e cai na escatologia de filmes de terror, você vai ver muito xarope de groselha fazendo o papel de sangue aqui, além disso, uma solução final dada pelo mocinho para poder vencer o vilão que ia desintegra-lo com o raio laser me fez dizer – É, ISSO AÊ, PORRA, TOMA ESSA SEU BOSTA, VAI PRA CIMA DELES.

Get out é um filme de terror que salvo algumas cenas não aterroriza, contudo, nem tudo são defeitos; O humor crítico contra o racismo é muito inteligente e nada clichê, a trilha sonora foi bem utilizada, a fotografia é competente e os planos sequência são muito bem programados, o lado negativo é que se você está esperando ver um filme de terror que te faça suar vai se decepcionar muito, este filme possuí cenas manjadas como “o cientista maluco no seu laboratório”, “a vilã que ostenta os troféus de vitimas antigas pregadas na parede enquanto procura uma vítima nova”, “o irmão mais novo problemático, junkie que procura ter um olhar perturbador” enfim, é um pacote completo de clichês.

Agora se você só quer ver um filminho bacana, com boas sacadas, bem dirigido e não se importar muito com o final, este é um ótimo filme para passar o tempo.

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