Contos

O casaco velho do Thoreau

É difícil escrever, às vezes não aparece nada. Você passa algumas horas estudando crase, o uso dos porquês, pega uma ou duas referências, manda alguns currículos, tenta pegar uns freelas e senta para escrever, e aí? E aí porra nenhuma, a tela branca fica olhando para a sua cara e você não é nenhum Raduan Nassar para conseguir fazer a coisa andar. Eu não sei como o Machadão se virava com a folha em branco mas vou te falar, é uma merda.

Você desliga a cabeça, abre um site, tenta descontrair e olha para um álbum de figurinhas de notícias merdas, dá para colecionar e trocar com os amiguinhos – ou, eu tirei duas repetidas sobre desastres naturais e duas sobre barcos, troca comigo por essa de crime de ódio e essa de abuso sexual? Firmeza, completei meu álbum, li tudo o que existe de errado no ser humano por hoje.

Algumas pessoas ficam dizendo que tudo isso faz parte das relações de poder, que poder cara, quando alguém teve poder aqui? É difícil, uma notícia sobre a outra, um assunto por cima do outro, é filme novo, é ministro dormindo, cheirando, é presidente, é esposa do presidente, é coisa para caralho. A gente fica meio ressabiado, sei lá, parece que tão forçando você a engolir um monte de coisas com um funil.

Você não entende nada, esse trabalho que você tem como chegou nele? A vida vem te olhando de longe e vai tricotando umas meias feias sem nem te perguntar nada, você até tenta falar com ela, mandar um chaveco, você chama a vida para perto, pergunta se ela quer  ir para um lugar mais silencioso para vocês conversarem, isso não  vai dar em nada, a vida vai ficar com o primeiro babaca que aparecer.

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Já reparou? Parece que a vida está sempre dando certo para os maiores babacas do mundo, parece perseguição, de quem? Dá desespero, é um entra e saí no metro, no escritório, na internet, fica essa felação de você com a vida e da vida com as coisas, a sensação que passa é que nada de significativo está acontecendo.

Então você se lembra de que está sendo muito injusto, porra, têm um punhado de coisas incríveis acontecendo, têm gente legal pra caramba do teu lado fazendo coisas legais, pegando projetos, topando correr riscos com você. Tem gente dividindo toda a vida dela contigo, têm ainda aquelas pessoas que a vida delas é doar tudo por você, para essas inventaram o nome de mãe e pai, nessa hora você se sente mais merda ainda, merda por que tá desgostoso com a meia que a vida te tricotou e mais merda ainda por se sentir desgostoso por isso, já que as pessoas legais estão todas te dando moral e você tá lá revoltado com alguma coisa que nem dá para saber o que, é tipo um desgosto por algo que não tem corpo nem nome, só sei que não está legal, o que fazer?

Dá para tentar ouvir música, abrir um disco antigo, baixar uns álbuns, a maioria dos artistas legais já morreram, morreram antes mesmo de você sequer existir, porra, é um saco. Você escuta, eu escuto, a agonia passa um pouco, depois de respirar e respirar com calma algumas coisas melhoram.

Bora pegar esse metrô, tudo bem, todo quinto dia útil cai uma grana, dá para assistir um jogo no estádio, comprar algumas coisas legais, sair com a menininha, tudo bem, vai fazer o que né? Pois é, vai fazer o que?

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Estes livros de autoajuda são injustos pra caramba, eles partem do pressuposto falso de que tudo está nas suas mãos, olha a cretinice desse conceito, como se absolutamente todas as variáveis possíveis pudessem ser ordenadas por uma única vontade, acredite e tudo muda, é muita crueldade. No começo a leitura parece bobinha e para inocentes, depois, depois dá muita raiva, é como se o livro estivesse te chamando de doido, você pode decidir tudo sobre a sua vida, é o líder dela, pena que é mentira. Covardia, porque as coisas vão dar errado, vão dar  certo também, nos dois casos a responsabilidade é dividida entre um punhado de pessoas e situações, não só você e definitivamente não só o livro.

Outra coisa é esse papo de que cada dia é um novo dia, mais ou menos, novo na medida do possível, normalmente o dia novo é muito mais o anterior do que o seguinte, entendeu? Se você paga aluguel a vida toda, a probabilidade é de que você permaneça pagando o aluguel e cada novo dia cheio de possibilidades seja só o resumo do intervalo entre o pagamento de um aluguel e o próximo, para um dia novo começar realmente cheio de possibilidades novas dá trabalho, não só para você mas para uma porção de pessoas que estarão envolvidas em todo o processo. Então como acontece? Acontecendo, é só assim. Você abaixa a cabeça e continua pagando aluguel, continua fazendo seu trampo e continua dando mais atenção para as pessoas que somam na sua vida, de algum modo, gradativamente, as coisas vão mudando. Não tem essa, cada dia não é um novo dia cheio de possibilidades, não caí nessa não, mas isso não significa que ele precise ser exatamente como o anterior, cada dia é um arrozinho diferente do anterior, aceite isso e tudo pode melhorar.

Sei lá, ou não, são só pensamentos, é deixar a mão escrever e talvez isso sirva para alguma coisa, não dá para tentar ser o expert em tudo, não importa quantas notícias eu abra, algumas vezes não aparece ideia nenhuma, a cabeça começa a ferver. No fim o importante é escrever né, colocar algumas coisas enfileiradas, o pior que pode aconteer é eu decidir apagar. Ou não, deixa aí, como diria Thoreau , “o casaco velho pode não me servir mas isso não significa que ele não servirá para alguém”, não foi bem assim, para começar ele disse em inglês, mas é meio isso.

 

Se servir tá aí, use bem.

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Pele com pele

A sensação de engolir um prego. Jonathan segurava a alça do caixão e o peso do caixão segurava a sua mão. O passo fincado em ritmo uniforme vencia o caminho até a cova, as botas de borracha, presente do tio, mantinham os pés secos enquanto o mundo era tormenta. Trovejava e ao fundo o som das orações. Oravam e ao fundo o som dos trovões.

As gotas que batem no gorro plástico da capa acentuam o tamborilar dos pés, o trecho é curto, dez, quinze metros se tanto, a infelicidade é que Jonathan não percorre com os pés descalços e as mãos livres e sim com as botas para lama e o peso da alça. Isso faz toda a diferença.

 

Sebastião trocou a marcha com alguma facilidade, apesar do câmbio ser longo, desconfortável e às engrenagens do ônibus antigo estarem sem lubrificação, o motorista compensa com todo o jeito conquistado após anos de prática. O parabrisa pontua o andamento do trânsito sem cessar, as raspadas sonoras são causadas pelas borrachas que deveriam ser substituídas. Em dias de chuva, o motorista gosta de segurar o motor e manter o veículo perto de si, sob controle, mesmo com toda a experiência ele morre de medo de precisar fazer uma parada brusca.

 

Silvana estava almoçando, o que era um alívio. Depois de ficar praticamente os últimos cinco dias sem comer, por conta de uma intoxicação alimentar, acidente que lhe arrancou a fórceps quase três quilos e fez com que ela perdesse toda semana de trabalho, para Silvana o fato de estar de frente para um prato de comida era a melhor notícia que tinha em muito tempo. O tratamento foi muito mais orgânico do que ela gostaria, sem dinheiro, e nem paciência, para procurar um médico decente, a garota resolveu seguir o conselho das outras amigas que trabalham na mesma rua, o tratamento era bem simples, beber água e apenas isso. Se tivesse procurado o médico Silvana saberia que a ingestão de água sozinha não era garantia de melhora porque a bactéria que se alojou na parede do seu estômago não ia ceder tão fácil a tratamentos simples. Infelizmente para Silvana as meninas pensaram que ela estivesse de ressaca ou que pudesse ter cheirado demais, e a culpa não é delas. O cotidiano nas ruas, e os empecilhos da profissão de prostituta, fazem com que a pele de qualquer moça se torne grossa como um carro blindado; e aí quem iria culpar uma delas de acusar a prostituta mais novinha da região de molenga? – Essa aí tá de frescura, nem bem começou e já está vomitando as tripas.

 

A corda raspava com força nas mãos de Jonathan, efeito piorado pelo fato delas, mãos e corda, estarem ensopadas. É preciso ter calma e sincronia com o outro que está baixando o caixão, se for muito apressado ou se o braço vacilar, o caixão desce de uma vez e isso trará muitos problemas. São muitas as vidas que acompanham a caminhada e o enterro de um caixão, a tristeza é um dos gatilhos preferidos da fúria. Um pai que vê o caixão do filho sacudido com força indevida não tem tempo de pensar antes de atirar-se para cima do coveiro, Jonathan sabe muito bem disso – machucou muleque? Não senhor. Percebeu a burrada que tu fez? Percebi sim senhor.

 

A formação é nenhuma e o dinheiro é pouco. Sem solução para ajudar nas contas de casa, situação agravada pela demissão do pai, o menino fez o que todo bom muleque faria no seu lugar, tentou roubar. Tonto demais para a profissão o garoto levou uma boa surra dos bandidos locais para aprender a não atrapalhar ladrão, sem nada pra fazer resolveu perambular pela rua atrás de esmola. Seis meses depois ele descobriu, sem querer, que a mesma estatística do desemprego que ferrava com a vida do seu pai podia ser uma ótima oportunidade para fazer algum dinheiro. Se o desemprego cresce os homicídios sobem. A prefeitura para compensar a fábrica de morte aumenta o contingente dos cemitérios públicos e foi aí que Jonathan conseguiu encontrar sua fatiazinha do bolo. Dono de dois braços fortes e uma mente fraca o menino rapidinho caiu nas graças dos funcionários.

 

– Se deixar, esse bicho leva até o Faustão sozinho no braço.

– O Faustão não é mais gordo não, seu paraibano burro.

– Quem caralho não é mais gordo, seu corno desgraçado?

– O Faustão, não é gordo não rapaz.

– Gordo é a tua cabeça seu merda, porra de Cearense quer falar de Paraibano, tô feito mesmo.

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Os seios dela eram firmes, o balanço bem distribuído enchia os olhos do menino. Dezenove anos e já puta, era uma sorte, dava até para acreditar que ele era o primeiro do dia, quem saberia dizer o primeiro da vida, besteira sua Jonathan, não importa. Os cabelos soltos agiam como uma cortina de cor escura sobre aqueles olhos perdidos. Ela dançava sem pressa sobre o seu corpo, pele encontrando pele, vozes encontrando vozes. Porra, é para isso que eu trabalho, até que enfim. O menino segurou um arroto cheio de cerveja e tentou concentrar toda a sua atenção no ato. A pele dela tinha cor de sabonete hidratante, de rico sabe. O gemido distante da menina parecia vir do horizonte de algum interior de São Paulo para encontrar os ouvidos do Jonathan. Leves ao toque, os mamilos respondiam ao mais simples aceno de uma mão ou uma língua… foi quando ela caiu.

 

Sebastião parou fora do ponto e deixou que os jovens entrassem pela última porta. O garoto moreno e de olhos injetados parecia atuar no piloto automático, subia e descia um pedaço de papel na frente da garota com o intuito de fazer circular um pouco de ar. A menina pálida, um pouco de nascença e um pouco por fraqueza, tentava se segurar no ônibus em em si mesma, por duas vezes não conseguiu e o vômito carmesim encontrou o chão.

 

– Deus me perdoe, eu nunca vi ninguém vomitar sangue.

 

É como engolir um prego, disse o cara que fazia a entrevista. – Na primeira vez você fica meio destoado, tá toda a família da pessoa lá e você não sabe bem o que fazer, fica naquelas né amigo, leva o caixão e vai andando manso, falando baixo. Depois da décima você já carrega um defunto mesmo, faz sua parte e pronto.

 

Se ele soubesse, agora não dá para saber se dentro do caixão tem uma conhecida ou não. Para Jonathan é de doer, pelo palavreado, que ele pode pescar enquanto aguardava o final do velório, a família tinha acabado de chegar do interior de Minas, a mãe, extremamente abalada, dizia que a filha trabalhava em um banco e ganhava muito bem em São Paulo, mandava todo mês o dinheiro contadinho para os pais. Uma doçura.

 

Deitou a última pá de terra e se foi. Esse é o momento de deixar os parentes falarem pela última vez com a pessoa viva antes de iniciar todo o processo de aceitação.

 

Ele sabia que não deveria ter dito nada, para que magoar a mãe e os parentes daquele modo? Ainda em um dia como este? Ou será que ele não disse.

 

A cabeça já não funciona bem, em casa Jonathan pediu para a mãe acender uma vela – Acendo sim meu filho – mesmo cascudo como um carro blindado, o menino chegou à conclusão de que pelo sim, pelo não, é melhor tratar bem os que se foram.

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Spoiler Alert!

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Sarah tinha doze anos quando caiu com um tiro na testa, na verdade, dizer que o tiro foi na testa é pura liberdade poética, uma arma calibre doze não é capaz de atirar só na testa, isso acontece por que quando é feito o disparo a bala se dispersa em diversos projéteis de chumbo. De perto o resultado é impressionante, se pedissem a um desinformado para definir a causa da morte ele poderia fazer uma infinidade de suposições – caiu um raio nela? Ela foi devorada por um tubarão? Um trem, ela foi atropelada por um trem?

Não é a primeira vez que isso acontece com alguém daquela idade naquela região. É assim, alguns lugares são assim mesmo. Sarah vivia com a mãe e as irmãs em uma área de risco qualificada como zona de conflito, portanto, morrer com um tiro à queima roupa é uma das coisas mais esperadas para esse cenário. O que é que muda no caso de Sarah? Por qual razão ela merece esse conto?

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A equipe de reportagem levou quatro horas de carro até o centro da capital, após alguns momentos de descanso e um sono rápido foram mais oito horas até a cidade onde a família de Sarah morava. Se adicionarmos o tempo necessário para cada repórter sair do seu país de origem podemos chegar facilmente ao resultado de uma semana em todo o trajeto.

O corpo da menina não estava mais lá, isso é lógico, foi removido e jogado em algum outro lugar, talvez uma fogueira. Na certa o mesmo homem que efetuou o disparo também foi responsável pela remoção dos restos. Não que remover o corpo destroçado de uma garota de doze anos fosse uma tarefa importante, eles já haviam deixado muitos outros para trás pelo caminho mas neste caso era preciso ter atenção aos detalhes. Eles sabiam através de alguns informantes que os repórteres chegariam no começo da semana seguinte  e era uma ótima oportunidade para fazer uma demonstração de força, contudo, o líder sempre acreditou que na hora de ganhar a opinião pública é preciso traçar uma linha entre a força e a barbárie e após uma reunião rápida ficou decidido que corpos de crianças do sexo feminino ultrapassavam essa linha. A menina foi removida e jogada em um latão cheio de gasolina que ardeu e soltou um cheiro horroroso por metade da noite.

A mãe e as irmãs foram silenciadas também, nada seria pior do que ter gente falando merda para a reportagem.

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O link ao vivo que abriu a primeira edição do jornal mostrava uma repórter maquiada e bem hidratada no que parecia ser uma zona mista entre grupos militares e transeuntes civis  – falamos da zona de conflito, aqui são sete da manhã, está bastante quente, como você pode ver existem muitas pessoas nas ruas agora, não existe um cessar fogo oficial mas a presença da nossa equipe parece ter dado coragem para as pessoas saírem um pouco de suas casas.

Já era meio dia, a repórter, agora muito mais cansada e desgastada pelo calor, estava almoçando no seu trailer quando o seu celular vibrou, o seu assistente havia deixado uma mensagem de áudio que ela não conseguia compreender.

São 5 da tarde, os repórteres sobreviventes estão reunidos no saguão principal do hotel, alguns deles ainda têm as mãos tremendo, outros estão tentando demonstrar calma e frieza para acalmar os companheiros. Todos tentam ligar para alguém, falar com alguém ou fazer com que uma mensagem que seja chegue até o seu destino.

A televisão e a internet já estão forradas com as cenas das explosões, foram doze ao todo, algumas bombas foram posicionadas em esquinas, outras foram grudadas diretamente na lataria dos carros de reportagem, uma explosão foi causada por um tiro de bazuca que partiu direto da zona de conflito em direção ao grupo de repórteres.

Os mais puristas parecem em frenesi, como se sempre tivessem esperado pela oportunidade de viverem isso – reportagem de conflito é isso mesmo, você deve compreender, você está bem? Por favor tome mais um chá.

Dez e quinze da noite, em uma cidade localizada a mais de 3500 quilômetros do local onde ocorreram as explosões alguns parentes e amigos se reúnem para organizar um encontro religioso em homenagem as vítimas, dentro da casa encontram-se os parentes de alguns repórteres e alguns outros funcionários do mesmo canal. Um link ao vivo está sendo programado para aquela noite.

Hoje faz cerca de 3 meses do ocorrido e Michele acabou de dar like e fazer um comentário abaixo de um meme que mostra metade de uma van em chamas, na edição o autor do meme trocou o logo do canal de televisão por uma foto de uma das personagens de uma série de tv, quando Michele viu a foto o riso foi instantâneo – hahaha, tomara que morram todos eles – comentou, fazendo alusão à série.  Seu amigo, que gostaria muito de transar com ela, comentou logo abaixo – hahah, porra, o último episódio foi intenso, você viu?

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Todas as imagens são de Joe Sacco, se você ainda não conhece os trabalhos dele deveria procurar agora, vou indicar especialmente o Palestina.

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Na praia

O exército Brasileiro é equipado com um fuzil de repetição de fabricação nacional. Diante desta arma a lataria de um carro popular é absolutamente insignificante, a bala poderia atravessar a porta e encontrar a carne e os músculos localizados dentro do automóvel.

Se disparada a uma distância média essa mesma arma é indiscutivelmente letal mesmo para pessoas equipadas com colete a prova de balas, existem casos em que essa arma consegue atravessar inclusive carros blindados, imagine o que ela foi capaz de fazer com o crânio do menino negro.

A sensação de contexto é essencial para que possamos dar alguma leitura coerente do que acontece, quando você observa uma praia espera encontrar nela volúpia e sensualidade.

O contexto da praia é futevôlei, são biquínis miúdos, correria e pessoas sorrindo, se encerra nesse termo praia todo um universo de experiências que estão relacionadas ao bem estar, talvez o gosto de sorvete já venha na boca de uns, ou o estresse do trânsito, praia é local de gente, de soldados?

Vê-los na praia instiga a contradição, parece um daqueles quadros que o artista responsável resolveu brincar com a ilusão de ótica e desenhou uma escada sem fim, você segue ela com os olhos e o ultimo degrau se reencontra ao primeiro dando uma pequena torção no seu cognitivo, você por um instante fica sem entender exatamente o que aconteceu e lá está a escada começada novamente, ver um soldado de guarda na praia é como assistir a uma apresentação do absurdo.

A maioria deles faz a ronda de dois em dois, são raros os trios e é impossível encontrar um quarteto.

Você já reparou como os shoppings são construídos tão rápido? Um dia o terreno estava lá cheio de lojas fechadas, espaços vazios e casas acabadas, e então em um domingo quando você sai para comprar ração para o cachorro lá está o shopping, diversos carros entrando e saindo dele, jovens se reunindo na porta, é impressionante, a construção dessa coisa deveria fazer muita bagunça e muito barulho, como é possível?

Quem estacionou este tanque na beira da praia? E quero dizer, para que? Obviamente um traficante não vai trocar tiros com o exército assim em campo aberto apenas por puro senso de batalha, certamente não tiros o bastante que justifiquem a presença de um tanque de guerra na beira da praia, esse tanque não está aqui para disparar balas contra bandidos.

O tanque, os soldados, o fuzis e os coletes a prova de balas estão todos aqui para passar uma mensagem agora falta saber ler qual é, será para nós, será para quem? “Os bandidos”, esse termo genérico que neste contexto é usado sobretudo para englobar quem? Pergunte-se, será? Pergunte-se.

Quando o garoto desceu da favela ele poderia prever o que estava para acontecer? É complicado, tudo isso se mistura e se dissolve de forma confusa, garotos, fuzis, a praia, a fome, o iphone e o trabalho.

Ela saiu do Shopping dentro de uma Ford Ka novo e completo, tudo estava jogado no porta-malas, não tinha muita pressa para chegar em casa, nada de muito importante para o dia de hoje. Os faróis, os caminhos e as sinalizações estavam todas lá, seu GPS estava lá, então o que poderia tê-la avisado sobre essa abrupta quebra na sua rotina?

O próximo farol era só um farol, programado para acender três luzes que em si não significam nada, não existe qualquer motivo especial para elas estarem onde estão e atuarem como atuam se não fosse a convenção estabelecida entre todos os que olham para aquelas luzes, assim como um dia as estrelas foram usadas.

A moto que parou do lado do Ford Ka não tinha placa, a arma sacada não tinha numeração, as palavras de ódio não tinham dono, tudo naquele dia parecia funcionar como um estranho teatro pré-estabelecido que vinha sendo ensaiado havia muito tempo.

Em quanto tempo eles conseguem levantar um shopping center?

Após um susto ela procurou em vão pela bolsa no branco de trás e percebeu que segurava o ar, nada, nada, um jogo de mimica definitivo, pelo espelho, uma palavra, quatro letras, nada. Não tenho nada.

Ele disparou uma bala sem dono.

Duas balas foram disparadas naquela oportunidade, uma saída de um revolver calibre 38 de numeração riscada, a outra partiu de um fuzil de uso do exército brasileiro.

Apenas uma pessoa deu entrada no hospital graças a essa cena, foi levada as pressas sangrando com um ferimento grave no ombro o que rendeu uma publicação da melhor amiga na timeline, por favor, doem sangue no hospital tal do tal, rashtag forçamiga, rashtag jesus no comando.

Existe uma mensagem implícita nessa atuação, tem de haver alguma coisa que possa ser interpretado, algo que deve ser lido disso, que leitura é essa, o que isso tudo quer dizer?

A questão é, quando um tanque de guerra é estacionado na beira da praia, quem está passando a mensagem para quem?

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Plástico

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Ela tentou se limpar mas o seu sexo inchado e arroxeado ardeu com o contato áspero do papel higiênico, estava vermelho, a pele ensebada tinha um aspecto de molusco. Mesmo assim ela esfregou uma, duas, sete, dezenas de vezes, parecia que nada conseguia tirar aquele sebo. Isso ela podia suportar, podia suportar a torção no estomago que aparece assim que tudo termina, podia suportar o cheiro de suor, podia suportar a fome.

Não dava para suportar olhar para ele, ela sabia que assim que saísse do banheiro ele estaria lá, talvez fumando, talvez tentando desesperadamente sensualizar – na próxima eu vou correr direto para o corredor e limpar a minha buceta no chão de carpete – saiu do banheiro.

Ela o viu encostado na cama, ele fumava. Fumava apesar da única janela do quarto estar selada e a porta fechada, fumava como se aquele cigarro fosse dar alguma resposta que os momentos anteriores não foram capazes de dar. Agora ela o via, claro que via.

O quarto possui um espelho no teto, um nas costas e um na parede lateral, todo o redor é composto por espelhos.  Ao lado da cama estão posicionados dois criados mudos sem gavetas que na prática servem apenas como aparadores para cinzeiros, maços de cigarro e latinhas de cerveja. Na parede da porta tem um interfone bege envelhecido sem teclas, basta tira-lo do gancho e uma luzinha acende no painel da recepção. Não existe nenhum passador de objetos pela porta então quem quiser pedir algo será obrigado a abrir a porta quando a coisa chegar.

As pernas estavam cansadas e o estomago tremia, era difícil segurar o olhar por muito tempo e agora estava ainda mais difícil devido a fumaça. Ela ensaiou dizer algo, o que poderia ser – então está bem, fodemos, eu vou embora – abriu a boca… a mancha de saliva na base do cigarro quase fez ela vomitar, segurou o refluxo. Com o olhar ela encontrou a calcinha e a calça jeans.

Ele tem 30 anos a mais que ela, vestido com uma camisa de pano brilhoso, o caimento da pele e dos panos tornam toda a cena deprimente. Não dá para saber se ele entende o que está acontecendo, o sorriso apalermado e as chupadas nojentas no cigarro fazem com que fique impossível analisar o perfil dele com alguma precisão.

Sem muita cerimônia ela começa a se vestir, colocou a calcinha, subiu sem que nenhum movimento pudesse nem remotamente sexual, precisou da ajuda da cama para se apoiar ao começar a subir as calças. Ele tirou o lençol das pernas e expos o membro.

Estava flácido e anêmico, a pele enrugada fazia par com a camisa e o papo do dono. Um novo refluxo veio mais forte e ela temeu não conseguir segura-lo, a frase seguinte apareceu coberta por saliva, fumaça e hálito de cerveja barata – eu ainda tenho 10 minutos.

O que esse imbecil pensa que pode fazer com mais dez minutos? Na verdade o que um traste destes conseguiria fazer com mais cinquenta e cinco malditos anos? A torção no estomago atinge um nível tal que cada interação é uma batalha isolada, olhar para ele exige um esforço de nível mediano, manter uma conversa de três palavras exigiria uma dedicação especial, voltar a tocar naquela pele nojenta é algo que está além das suas capacidades.

– Eu vou embora, na próxima você ganha mais dez.

Apesar dos vinte anos não é a sua primeira vez, ela já fez isso antes, ela tem feito isso quase que diariamente desde os dezoito anos de idade, basta fazer um agrado diferente, enviar uma mensagem mais doce, um olhar novo, basta fazer com que ele se sinta especial, ah, especial e pronto, nada de muito importante vai acontecer. Só precisa comer, só quer comer alguma coisa longe daqui.

O papo solto da pele tinha aspecto de flanela, a forma como o ar passava pela garganta fazia o pomo subir e descer em um ritmo adoentado, a voz é pigarreada, marcada pelos anos de cigarro – você vai ficar por mais dez minutos.

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Foi simples entrar, bastou fazer um cadastro no site e enviar algumas fotos. Após alguns dias os organizadores a chamaram para uma entrevista e uma transa teste, com tudo feito eles providenciaram uma sessão de fotos mais profissionais e pronto, ela já fazia parte do cardápio. Embora os organizadores cobrem 25% de tudo o que entra é um modo preferível do que ficar na rua esticando o braço – eu não vou ficar parada em esquina igual puta.

Ela sabia que tinha que ir, apenas por que ele é um dos mais frequentes usuários do site e uma reclamação poderia colocar por terra tudo o que ela passou os últimos dois anos construindo.

– Eu posso te enviar algumas fotos especiais, tenho fotos novas que não estão no site nem em lugar nenhum, mando elas direto para você e na próxima te dou um tratinho especial, papai, você gosta da sua filinha, papai?

O vomito que caiu no carpete do corredor se misturou naturalmente com as manchas antigas de pisada molhada e os anos sem limpeza.

 

 

Ela terminou o Whopper, bebeu o refrigerante até o fim e saiu às pressas.

O banco do passageiro cheirava  doce, talvez algo com amêndoas e o espelho do para sol ainda estava abaixado, ela sabia que ele havia acabado de deixar a esposa no trabalho.

– Desculpe a demora, eu tive um contratempo de manhã – disse sem muito entusiasmo.

Ela fungou uma, duas, uma dúzia de vezes, este, aparentemente, não fumava.

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Enferrujado

Quem preencheu o atestado de óbito não foi o médico legista, não teve nada de olhar no relógio e anunciar “hora da morte, tal do tal”, não tocou música fúnebre ou épica como plano de fundo,  nada de longos closes com a paleta em cor azul escura ou alguma luz de fundo suave , nada que pudesse ressaltar a dramaticidade da cena. Nem sequer chovia.

Na verdade o médico legista nunca teve a preocupação de saber  o nome ou  como era o rosto do morto;  isso porque antes de sair ele deixou diversas folhas assinadas e carimbadas no bloco de Registro de Óbitos para o caso das enfermeiras precisarem. Ficou sob responsabilidade da primeira enfermeira do turno da tarde preencher o único papel que atestava que aquele indivíduo que era algo não é mais.

Com uma breve espiada por baixo do lençol Mariela reparou que o pessoal do turno da manhã estava fodendo com ela – puta que me pariu, acho que nem um reino de merda cheira desse jeito – Causa da morte, ataque cardíaco, dia quatorze do sete de dois mil e dezessete, são quatro e meia da tarde.

Era mentira, se ela, ou se alguém, tivesse se dado o trabalho de analisar o morto por mais dois minutos encontraria a marca próximo a região da nuca, foi um golpe forte e maciço. A excentricidade da arma passaria despercebida para os menos sensíveis, um cano de aço, daqueles antigos,  sabe aqueles que faziam parte do sistema hidráulico da casa das nossas avós e avôs, porra sistema hidráulico, do encanamento mesmo, é que eu não queria usar a palavra encanamento tão perto da palavra cano, soaria muito parecido, uma tolice eu sei, o golpe partiu de uma região mais baixa para encontrar a nuca do corpo morto.

Se alguma importância fosse dada para o fato e alguém, qualquer alguém, exigisse um raio x descobriria que as primeiras vértebras se romperam no começo do pescoço, ou seja, se ele não estivesse morto, e ele está, na certa ficaria tetraplégico, uma planta como gostam de falar de forma ofensiva. Dependendo do nível de ódio do agressor esse na certa é um destino preferível, porque a morte, a morte é tão essa gaveta sem nada, um papel do lado, uma reclamação da funcionária e pouco mais do que isso. Já privar a pessoa odiada da capacidade de limpar o próprio cu ou tocar a própria punheta, caralho, isso seria demais. No fim todos nós nos cagamos de medo disso, não poder tirar merda do próprio cu, esse porra não pode mais, mas agora ele não pode nem respirar. Ele morreu.

Que errado dizer ele morreu, porque deste modo quem exerce a ação do verbo morrer é o eu, e o eu não foi agente da ação de morrer, não diretamente. Decerto ele deve ter provocado a própria morte de outras maneiras mas jamais exerceu o verbo morrer, compreende?

Nós podemos falar, ele pulou, ele nadou, ele cuspiu, ele xingou o cara que tinha o cano de ferro na mão de cuzão do caralho e portanto, dado isto, por consequência, ele foi golpeado com um cano e morreu, mas jamais, ele morreu. Porque dizer ele morreu dá poder a esse monte de células definhando, dá a ele uma certa liberdade de escolha que ele não teve. Ele agiu de um modo e foi golpeado, mas ele não decidiu morrer, e assim sendo, ele não morreu.

Ela colocou ataque cardíaco e sabe o porquê? Porque o corpo morto é gordo, grande e gordo. Além de ser grande e gordo foi encontrado no meio da madrugada em uma região próximo à um ponto de drogas, melhor chamada de biqueira. O gordo fedorento estava perto de uma biqueira e um puteiro de 20 reais, daqueles que as moças e travestis que trabalham lá já estão nos piores dias e só o fazem para sustentar os vícios particulares.

Pois bem, o gordo não carregava nenhum documento com ele, mais provável que o agressor tenha levado embora e já vamos aceitar que o celular e qualquer outro pertence também tenham ido pelo mesmo destino.

Ah mas poderiam tirar a impressão digital dele, descobrir o nome, contatar a família, alguém deve saber quem ele é. Pois é, por algum motivo o delegado responsável pelo turno da madrugada resolveu fazer mesmo tudo isso; o 3g dele estava quase acabando então não era mais tão atrativo ir para o banheiro se masturbar vendo algum vídeo, sujou o dedo do corpo, tirou a impressão e descobriu um nome, A. qualquer coisa, sobrenome tal do tal. E daí? Daí que quando a senha foi chamada ninguém levantou da cadeirinha para responder. Saber o nome dele foi o mesmo que não saber. Trabalhou na empresa essa mas saiu de lá fazem seis meses, morou na rua aquela mas os vizinhos não falavam com ele, possuía o carro tal do tal mas e foda-se. A verdade é que o gordo Aissoaquilo não fazia diferença na vida de ninguém, nenhuma mãe que o ninou apareceu para ser a carpideira, nada. Os locais por onde trabalhou e as pessoas que cumprimentava diariamente não tinham dele grande impressão, melhor seria falar impressão alguma.

Mas alguém tinha, alguém que se deu ao trabalho de movimentar mais de cinquenta músculos do corpo e gastar uma energia moderada na ação de golpear com o cano de aço. Um ser vivo se importou com ele. Esse alguém se importava com o gordo. A beleza das coisas, no final, no último dia e após o último dia o melhor amigo foi o portador do cano, o executor da pancada e a declaração de amor, aquela frase que diz “ei, eu me importo com você” foi um, como eu disse antes, maciço e certeiro golpe vindo da região de baixo para atingir a nuca no começo das vertebras, quase nas costas. Um golpe em arco no ar, duas pessoas, um cano e uma declaração de vínculo.

Mas não saberemos quem é, não saberemos porque a enfermeira ficou fodida da vida quando sentiu o cheiro podre e assinou que foi morte por ataque cardíaco, vindo de um gordo próximo a uma zona que vende cocaína, nada mais provável.

Foi enterrado como número 1324908 no cemitério público da Vila Formosa, às 5 da tarde da quinta feira, quase seis dias após a sua morte. Os coveiros envolvidos detestam enterrar indigentes, não têm para quem pedir caixinha. Todos os envolvidos lidaram com a situação da maneira mais rápida e menos trabalhosa possível.

O delegado responsável pela pesquisa pegou o papel com o nome, fotografia, número do RG e possíveis contatos e amassou para usar de apoio para a sua latinha de coca cola que ameaçava fazer uma marca molhada na mesa . Os auxiliares e policiais que ajudaram em toda a pesquisa, no translado e em diversos outros momentos da operação, já estavam na patrulha.

 

Ninguém perguntou nada, ninguém questionou nada.

 

Como uma última informação, para você não pensar que chegou até aqui para absolutamente nada, o cano foi atirado em um rio e o executor está (ou estava, dependendo de quando você ler) transando com uma garota de programa. Ele pagou 20 reais pela foda.

Esses 20 reais estavam na carteira do gordo? Vamos amarrar com essa ironia?

Não, esses 20 reais eram do executor ou ele achou na lixeira de casa sete meses antes de ter feito o que fez, ou não, ele pegou de troco em um bar após pagar um Derby com uma nota de 50, não importa.

 

E ficamos assim.

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