Cotidiano

Amanhã tem Libertadores

 

Não tem jeito, mesmo que a gente finja que não gosta ou que usa apenas de modo recreativo, sempre, de algum modo, a televisão acaba em um canal onde está passando o Londrina contra o Vila Nova, um a zero para o Vila Nova, gol achado.

É essa mania besta de contar histórias. Não dá para negar, acho que da mesma maneira que dois buracos e um corte acabam formando um rosto em uma lata de lixo, nós ficamos procurando roteiros para esse esporte, a pior parte é que eles existem.

O cara nunca jogou em um time grande, jamais entrou em campo por um elenco de série A e quando ele entrou foi para substituir um dos principais ídolos dos últimos 4 anos, pensa na responsabilidade, além disso a torcida deste time é uma das mais implicantes com novos jogadores, é o caldo perfeito, o cara entra em campo e não perde um jogo, não perdeu ainda, juro para você, o cidadão já entrou em campo mais de dezenove vezes, zero derrotas, cara.

É o encontro que essa mania proporciona, com duas palavras e um completo estranho acaba se tornando seu melhor amigo – e aquele gol hein? – PORRA, TAVA IMPEDIDO – E TAVA MESMO, VOCÊ É LOUCO – ISSO AÊ, LOUC O TÁ AQUELE TÉCNICO – Simples assim, nasceram juntos.

Funciona como o melhor modo de testar um terreno desconhecido, de buscar uma forma de conexão que seja, lógico, isso por que ás vezes o débito demora um pouco para carregar na maquininha  e no intervalo entre a senha e o papelzinho pode caber um – e o Brasil? Será que vai?.

Olha que loucura, tá na cara que essa pergunta é sobre a bola, que coisa, nem tem como fazer uma pergunta destas se não for para falar de futebol, já imaginou? O absurdo que seria falar assim de graça se o Brasil vai ou não vai, disparate.

Você já sabe a resposta, oh, só pontuar – com Jesus e Coutinho, só dá para ir mesmo né. E dá mesmo.

Além do que, se as histórias e o Brasil não empolgarem ainda dá para atuar como bibliotecário do esporte, pesquisador sabe, é só assistir a uma partida de futebol repleta de modelos para creme de barbear e anunciar – isso aê, ruim demais, no Arapiracarense de Mongaguá joga um meia ofensivo muito melhor – e está feito, quem vai pesquisar? Os mais entendidos vão balançar a cabeça dizer – é mesmo, concordo – Todos sem muita confiança mas cheios de sabedoria.

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Foram 22 anos cara, em 22 anos você consegue ser um dos melhores em uma carreira acadêmica, é tempo demais

Dá para deixar um país inteiro cansado de ver o seu rosto se você ficar vinte e dois anos como presidente, nossa, e faz quantos anos mesmo que nós temos o nosso? É mais ou menos por aí? Nem sei mais.

A bola saiu para a lateral e vinte e dois anos depois foi reposta pelas mãos do Moisés, foi assim, jogada na área, uma novidade meio remendada de diversas outras jogadas, algo que no fundo no fundo nem fez tanta diferença, foram só seis gols marcados com essa novidade, seis gols não vencem um campeonato e seis gols não superam uma espera de vinte e dois anos, mas serviram. Seis gols que determinaram um novo estilo de entrar em campo.

Tudo mudou, claro, os patrocínios eram outros, os jogadores, os rostos na arquibancada mas de algum modo essa máquina de olhar para trás que é o futebol sempre fala do futuro, nós comemoramos um passeio ao passado ali em 2016.

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Amanhã a maquininha começará a rodar novamente, tudo pronto, esse Doctor Who que aparece dentro da nossa televisão e instiga. Essa somatória de narrativas impressionantes que garantem, isso é o tempo e isso é o futebol.

Em campo serão 22, como os anos que nós tivemos que esperar. Para os que estarão em casa o tempo médio do começo da transmissão para o final dela é de duas horas.

Na cabeça de cada um todos estes números dizem alguma coisa, como a camisa 30 que o Palmeirense aprendeu a fazer sinal da cruz antes de passar na frente, é isso, quantas bolas enfiadas.

Números dizem tudo e não dizem nada, se tivermos birra com o jogador os números dele podem ser os maiores do mundo, até mesmo ser a maior contratação e o maior salário, não serve – se dependesse de mim, esse aí não ficaria nem na reserva – dá desgosto.

Agora se o cara é bacana, se o porte dá orgulho e em campo ele levanta grama, pode nem fazer gol, pode ser um pé torto tal curipira que não tem jeito – esse técnico come o que? Deixar o cara no banco?? – são nossos números.

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É o nosso jeito de fazer sentido, poxa, pensa em quanta grana isso faz girar, e ela gira até ficar estacionada no bolso de algum merda que nem assiste futebol, é isso, isso acontece mas olha só, essa bola no travessão, puta merda cara se entra… O tempo para, vivemos no se.  Da gosto, é viver de hipóteses. Se a única coisa que importasse fosse o resultado concreto, o melhor e o pior, quem perdeu e quem ganhou, rapidinho o esporte perderia a graça, ninguém ia assistir. É essa possibilidade, esse desejo latente que traz o sobressalto, a potência está toda no quase, quando acontece, honestamente, às vezes, raras, dá até um desgosto. Por que já foi e foi como mostrou que foi, olha que chato, o mesmo vale para o fracasso, quando o time enfim é derrotado dá uma angústia, não é por que perdeu, é por que fomos privados do se, do o que, do quase… É assim, tempo em suspensão, viver do “mas será”.

Amanhã tem Palmeiras, o jogo mais importante do ano até aqui… Para quem gosta aproveite esse momento, o futebol é, na verdade, esse momento da espera. Vida em suspensão.

Reprodução/Twitter oficial de Edmundo

Reprodução/Twitter oficial de Edmundo

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Cotidiano

5 motivos para pesquisar um novo autor ou autora na FLIP

image Não sei se vocês sabem mas a FLIP (Festa Literária de Paraty) está acontecendo.

Local que concentra diversos pensadores e escritores contemporâneos, a FLIP deste ano está especial , os organizadores resolveram dar um espaço mais igualitário para as autoras, também para os autores de outras etnias ou lugares que normalmente ficam fora do circuito comum das publicações, por este motivo a minha publicação de hoje será muito mais modesta e simples, eu vou me propor a dar 5 motivos para você ler mais, não apenas isso, por que aí você pega aquela coleção de Harry Potter e pronto, não, não, 5 motivos para você ler mais livros de mulheres, ou africanos, ou autores (e autoras) latino americanos, enfim, 5 motivos para você tentar abrir o seu olhar literário.

Não vou começar com aquelas ladainhas de “ah, vai deixar seu vocabulário mais pomposo” etc, etc. Os motivos óbvios você já sabe, ler vai ter tornar uma pessoa melhor, óbvio mas e então quais seriam outros motivos, mais mundanos, mais pé no chão, quais motivos mais roots mesmo para pegar um livro hoje? Vem cá, só um aviso, como nenhuma destas dicas é comprovada e todas elas partem de um pressuposto adotado por mim, vou iniciar todas elas com “é provável…”,  assim ninguém poderá me acusar de falar besteira.

 

  • É provável que você vá ganhar um salário melhor

Você pode até achar que é pura bravata minha mas é verdade, lendo bastante é provável que você desenvolva diversas outras habilidades importantes como o discurso claro (e coerente), agora, lendo sobre outras culturas ou outros pontos de vista (e o legal seria até pontos de vista que você discorda) o seu repertório ficará muito mais abrangente e vai melhorar até a sua capacidade de analisar melhor as situações, sério, pelo simples motivo de você estar combatendo seus preconceitos e dando a oportunidade de conhecer outras culturas. Todas estas características são importantes para conseguir um carguinho melhor no que você quiser fazer. Se você dúvida joga no google, certeza que existe algum estudo de algum lugar que corrobora essa minha dica

 

  • É provável que você se preocupe menos com coisas estúpidas

Hoje é fácil dar uma ênfase muito grande para coisas sem tanta importância, sabe, passar o dia vendo dicas de pessoas que honestamente não são tão melhores assim que você, tudo bem ver uma ou outra coisa mas dedicar uma vida? Está louco, Gabriel Garcia Marquez foi um Colombiano muito legal e deixou várias coisas escritas muito mais úteis do que as dicas daquele vlogueiro famoso, e no fim o Gabriel nem pede para você se inscrever em nada, usa ele como exemplo e dê a oportunidade para uma Colombiana contemporânea.

 

  • É provável que você fique imune a essa doença de acreditar que a terra é plana

O mesmo vale para todas as outras anti-teorias modernas como  o aquecimento global não existe, dona fulana de tal está viva na Itália, etc. Sério mesmo, é quase como um reflexo da dica número 1, ao ler você afia o seu senso crítico e começa a perceber como esses absurdos são ridículos. E não pense você que isso é fácil, acho que todos nós de algum modo acreditamos que a terra é plana em algum assunto, sendo assim nada como tentar expandir nossa cabecinha para evitar esse tipo de acidente.

 

  • É provável que a sua vida fique muito mais interessante

Não tem nada mais legal do que pegar um livro fora do contexto e encontrar nele alguma história bacana. Um tempo atrás eu peguei um livro chamado Paraíso&Inferno do escritor Islandês Jón K. Stefansson e foi uma das melhores coisas que eu já li, é ótimo e é tão legal observar que eu, no Brasil, me identifico com as personagens de um país tão distante geográfica e culturalmente. Tudo bem que você pode dizer, “ah, Islandês né seu hipocritazinho de mer… e você mandando nós lermos latinos”  mas em minha defesa eu preciso dizer que já li muito Vargas Llosa e Isabel Alende, então tenho um pequeno crédito.

 

  • É provável que você perceba como o a sua cultura é rica

Eu disse na dica 4 que você ficaria fascinado em se identificar com pessoas de culturas distantes e isso é verdade mas também é verdade o fato de você notar como a sua própria cultura é rica e como o seu modo de fazer certas coisas são instigantes, é bacana reconhecer que no meio desse mundo enorme existe algo que te caracteriza como singular. Ao testemunhar (mesmo através dos livros) a forma como outros povos agem em determinadas circunstâncias você vai dar mais valor para aquele seu modo particular de ser e até para as liberdades que existem no seu país que você nem tomava como vantagens, dúvida? Experimenta ler alguma coisa sobre o modo de vida da Coréia do Norte (inclusive existe um vencedor de Pulitzer sobre esse assunto, não vou falar quem é, joga no google ) (mentira, vou sim, o livro se chama Jun Do e é do escritor Adam Johnson, vale demais a leitura), depois de ler sobe a Coréia do Norte, o Camboja, etc, o Brasil parece um paraíso na terra.

 

Uma sexta de bônus, nem vou abrir um item só para ela, livros são muito mais baratos do que passagens, além disso, com os livros você pode entrar em territórios que seriam bem perigosos para ir pessoalmente. Tá aí, se nada disso te incentivar a ler mais e você quiser ficar no seu Harry Potter mesmo, tudo bem, Harry Potter é uma coleção muito bacana de livros, só me faça um favor, não fique discutindo que a terra é plana nem compre livros “escritos” por Youtubers.

 

Já falei que você para de acreditar que as mudanças climáticas são mentira? Sabe assim, por que não são… Só para deixar aqui né, como, enfim… Não são, ok?!

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Mais reflexões sobre suicídio

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Quando temos uma gripe muito forte nós queremos uma caminha, sossego, carinho das pessoas próximas que amamos, queremos uma sopinha de algo gostoso e se possível que nossos chefes sejam engolidos pela terra, ah, se der para ter um episódio legal de alguma série bacana também caí bem.

Todo mundo aqui sabe como é estar gripado, o nariz fica uma merda, a voz começa a se transformar em algo saído de um filme de terror ou um squick irritantezinho na medida certa para te fazer soar patético;  na gripe o nosso corpo é atingido pelo lendário caminhão e tudo o que queremos, tudo mesmo, é não ter que ir trabalhar. Olha como é fácil falar de gripe, é bem tranquilinho…

Falar sobre suicídio não precisa ser um passeio a um parque abandonado, onde as atrações estão todas empoeiradas e a barraca de algodão doce descolorida e cheia de ratos.

É claro que o tema será desconfortável e é para ser desconfortável, é desconfortável por que quando falamos sobre o suicídio temos de aceitar a premissa de que é possível perder o controle sobre si mesmo.

Em algum momento da maturidade é preciso aceitar o fato de que não temos o controle sobre nossas vidas, a simples aleatoriedade dos acontecimentos garantem que você tenha um controle muito efêmero sobre o resultado da grande maioria das coisas, mesmo que muitos livros de autoajuda te digam para repetir em frente ao espelho “minha vida é um navio e eu sou seu capitão”.

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É preciso descolar o aspecto do suicídio com as nossas expectativas de felicidade, isso pelo motivo evidente de que a régua da felicidade de cada um é diferente e seria um erro absurdo incutir no outro a sua esperança para a vida. Sendo assim não é nada inteligente ao debater um tema como depressão e suicídio usar máximas do tipo “dinheiro não traz felicidade”, “nossa e tinha tudo”. É obvio que para um suicida algo muito particular estava faltando, o simples ato trágico máximo do suicídio pode servir como a tentativa derradeira de descobrir o que é isso.

Angústia é algo que todos nós sentimos, em doses grandes ou menores todos nós sabemos como é o sentimento atemporal de forçosamente viver o futuro sem ter tempo de lidar com o presente, a angustia age como um descompasso infernal que te azucrina dia e noite sobre algo que pode demorar para acontecer, que até talvez jamais aconteça. Esse é um sentimento básico mas e quando a angústia se torna doença?

Devemos fazer um esforço especial para observar que a depressão é um fenômeno físico tanto quanto psicológico, já que trata dos níveis de Serotonina entre outros fatores biológicos, não é atoa que muitos pacientes apresentam uma melhora enorme com remédios que atuam diretamente na inibição de agentes químicos responsáveis pela sensação de diversos “estados de espírito”. A depressão é uma doença catalogada e real, tentar anular ela com “pensamentos positivos” e fotografias em eventos sociais é uma forma de negação extremamente prejudicial.

Não podemos incorrer no erro de acreditarmos que somos todos capitães, que nossas vidas são navios e aqueles que encontram uma rocha no caminho o fizeram por incapacidade.  Ao ouvir algumas pessoas discutirem sobre depressão e suicídio é possível supor que tudo estava na mão do deprimido e o fato dele ter conseguido ou não “vencer” a depressão é somente um atestado de incapacidade.

Se eu te pedir para fazer uma lista honesta de todas as coisas que deram certo na sua vida e são obra sua de cabo a rabo que tipo de lista você teria?

O que estou dizendo é que depois de descobrirmos a fragilidade de tudo o que nós temos como tão certo e sólido, nós, talvez, tenhamos a capacidade de desenvolver uma alguma, qualquer uma, empatia genuína por aqueles que sofrem ou sentem dores diferentes das nossas. É preciso perceber que o mundo não age de forma ordenada e que nada parece fazer sentido todo o tempo, mesmo o mais detalhado dos planos tem chance de falhar. Muitos dos nossos planos já falharam e outros ainda irão falhar, então por que quando nos deparamos com uma pessoa desesperada, deprimida ou um suicida a nossa primeira resposta para isso é entrar na defensiva e apontar o dedo acusando de fraco, débil ou incapaz?

Nos outros textos que postei sempre bato a tecla para o autoconhecimento e neste adendo pretendo mais uma vez acudir para esse ponto, até quando vamos fechar a porta para o que existe de feio em nós? Compartilhar apenas o belo pode trazer consequências desagradáveis, no fim, de tanto Instagram estamos nos tornando uma geração de imaturos que não conseguem sofrer e não têm paciência com quem sofre, e isso, isso não pode ser saudável.

Se o suicida é alguém famoso a relação com o incidente fica complicada, o que antes era pura falta de empatia passa a se tornar antipatia, do outro lado é possível encontrar uma devoção desenfreada e assim perde-se a conexão com o tema mais importante, o suicídio.

É claro que os fãs devem sofrer as suas dores e fazer o melhor para absorver essa perda de um ídolo e os impactos que isso pode acarretar, contudo, entre o não ligar e o ligar demais ninguém acaba falando sobre o fenômeno em si.  Vou tentar deixar mais claro, imagine que um famoso perde o controle do carro, acerta um muro e morre, de um lado ficam as pessoas que não davam a mínima para o famoso – esse ai morreu por que não sabe nem virar um volante – do outro lado as pessoas frenéticas e fanáticas pelo dito – minha nossa, sem ele nada mais fará sentido  – notaram? Ninguém está discutindo sobre a segurança da estrada, sobre como sinalizar melhor essa curva ou quem sabe colocar uma lombada pouco antes dela para evitar que outros venham a toda velocidade e morram também.

Chester Bennington, Chris Cornell e muitos outros ídolos morreram vítimas do suícidio, assim como diversos anônimos insubistituíveis. E é preciso falar de vida mais do que falar de morte, é preciso entender como viver, viver de verdade e não essa vida fakeada, para não deixar que mortes assim tenham sido disperdiçadas.

O debate é extenso, difícil e desgastante mas se queremos entender e evoluir como sociedade é necessário separar um tempo para conversar sobre isso também.

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Chester Bennington comete suicídio e manda um aviso para os nossos ídolos

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Ídolos são personagens que alimentamos no nosso imaginário de forma a dar coesão para as nossas narrativas particulares

São aqueles exemplos externos, em muitos casos distantes, que nos emprestam suas vidas, nós, no conforto da nossa pele, podemos projetar através dos nossos ídolos todas as nossas frustrações. Já foi moda manter ídolos com vidas errantes, desde os Sex Pistols, passando por Ramones, Metallica e toda sorte de roqueiros serviam como exemplo para jovens frustrados e colar um pôster do ídolo na parede do quarto, esperar a música tocar no rádio para gravar e discutir/dividir musicas novas com os amigos eram a forma de escape de muitas gerações, inclusive foi como eu aprendi a compartilhar sentimentos e dividir angústias no inicio da adolescência.

A moda dos badboys ficou esquecida, os ídolos hoje não possuem mais um estereótipo específico, a pulverização causada pela internet dissolveu diversas tribos, outrora mais coesas, em mini grupos, quem antes eram apenas os metaleiros, hoje exigem que sejam chamados de os metaleiros, veganos, agnósticos, canhotos de direita.

Cada cidadão hoje possuí uma coleção muito bem cuidada de ídolos e as idades destes personagens são diversas, até a formação ou a importância desse ídolo é confusa. Se antes você admirava certo ator pela performance ou certo baterista pela agilidade, hoje, adolescentes absolutamente vazios são admirados apenas por serem muito admirados, e você segue eles apenas por que eles têm muitos seguidores. Discursos vazios, roteiros manjados, piadas cretinas.

 

Um mundo de roteiros  desonestos e sem plotwist . O que está posto é o que eles têm de melhor, aquele youtuber não vai tirar um coelho da cartola, o mesmo discurso de hoje é o de amanhã e a mesma opinião de hoje será a de amanhã, o raso tornou-se a regra e a regra é não se aprofundar.

É muito difícil encontrar a produção de conteúdo genuína e engajada, seja no que for, nosso engajamento está mais para obsessão pura e simples e o que já foi o desejo de conexão com outra pessoa, como emprestar um kassete gravado ou compartilhar um cartucho de vídeo game, hoje virou uma discussão pura e simplesmente vazia.

Neste contexto discutir assuntos como depressão, alcoolismo (ou toda sorte de vícios) e o suicídio é uma tarefa para poucos e quem o faz, por que algumas pessoas fazem, são rapidamente vistas como antissociais, chatas, se não no melhor dos casos, apenas bregas.

A época do olhar cabisbaixo e do comportamento introvertido ficou para trás querido, começou lá com o The Cure nos anos 80, teve o seu auge com os grunge nos 90 e morreu em paz nos anos 2000 com a moda Nu Metal, não é hora de ficar triste queridinho.

Agora nós temos sucos detox, acompanhamento Coach, tutoriais de maquiagem, cinquenta truques para manter o banheiro arrumado, zilhões de aparelhos USB, panelas que não grudam, dieta vegana e aplicativos. O futuro te sorri e você é obrigado a sorrir de volta.

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O problema é que a depressão existe e mesmo que ela contrarie TODAS as suas crenças de autopreservação, e ela continuará existindo. Uma doença complexa que encontra no comportamento frenético moderno terreno fértil para proliferar, afinal de contas, está tudo dado.

Não faltam crises para assombrar e não faltam vícios para aplacar a angústia, você pode se viciar em Whoopers, em coca cola, em pornografia, em joguinhos estúpidos do celular, você pode se viciar no facebook e colocar no papel de ídolo a sua vizinha que tem um emprego merdamente, quase nada, aparentemente melhor do que o seu.

No caso mais extremo você pode se viciar em você mesmo e passar o dia todo tentando provar para todos que todas as suas decisões, suas opiniões, suas escolhas e os amigos que você mantém são perfeitos, essa é a palavra do dia de hoje, perfeição.

Na tarde de hoje, dia 20 de Julho, 2017, o mundo perdeu um ídolo de muitas pessoas na casa dos 30 anos. Chester Bennington da banda Linkin Park cometeu suicídio na sua residência, e o que tudo isso quer dizer? É difícil dizer, é difícil dizer o que quer dizer mas é possível concluir que todas as vezes que alguém decide tirar a própria vida é por que a comunicação falhou, quem estava lá falhou com ele. Quando um ídolo morre de maneira tão trágica é possível aproveitar a oportunidade para discutir assuntos sérios e tentar garantir que ninguém mais morra pelo mesmo motivo.

Linkin Park nunca foi uma das minhas bandas preferidas, ouvia essa ou aquela musiquinha, de todo modo é incômodo demais (e alarmante) concluir que os pedaços da sua juventude se desfazem.

Usando o ótimo livro intitulado “O demônio do meio dia (Andrew Solomon)” eu posso dizer que é hora de criarmos conexão para dividir o que há em nós de humano, de falho e de feio, usar o momento para darmos espaço para o diálogo honesto, pois, se continuarmos nessa busca incessante pela perfeição, pelo belo e pelo bem sucedido dias como o de hoje continuarão a existir, no frenesi da informação a morte de hoje foi só um link, alguns fãs vão enviar emotes tristes, os intocáveis do facebook ficarão indiferentes por fora mas irritadinhos por dentro e amanhã tudo acabou.

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A beleza de ser mais um

Quantas vezes por semana você sente que acorda em um mundo completamente diferente daquele que existia quando  foi dormir? Normalmente essa sensação vem acompanhada de uma impressão de saudade, saudade de ontem e você sente que uma verdadeira enxurrada se aproxima.

É como entrar em um cruzamento sem parar, você embica, entra, acelera e sente o impacto na porta.

Em menos de um minuto muitas coisas se desfizeram e deram lugar a outras, diversas outras. Automaticamente bate a saudade de antes de entrar no cruzamento, você tenta se lembrar do que estava fazendo, o que estava pensando, quais eram seus planos. Se lembra das compras que você fez no supermercado, do último beijo na namorada, você lembra da última vez que fechou a porta do apartamento, faz menos de um minuto contudo parece uma vida tão distante.

E depois disso, depois disso você chega a conclusão óbvia que a vida não está completamente no seu controle. A narrativa cuidadosamente ensaiada dentro da sua cabeça para sempre te deixar no comando ganha uma nova informação. Uma variável intrometida que aparece para desmentir tudo o que você acreditava até aquele momento, “isso não acontece comigo”, é clicê, porra se é clichê, mas é o que você pensava. Você pensava que não entraria na fila dos desempregados, até que você entrou. Você pensava que não iria errar a curva, que dava para passar, você pensava que nunca iriam descobrir as suas falhas, até que tudo veio a luz,

Você descobriu a única coisa realmente importante de se descobrir, você não é especial;

Você não é especial e isso é uma ótima notícia, olha, isso é uma notícia do caralho. Porque agora com essa descoberta você pode adotar uma nova narrativa, dá para acontecer comigo, oh se dá, eu posso virar um desempregado e isso não depende unicamente de mim, eu posso fazer tudo certo e mesmo assim ir morar em baixo da ponte, mas também dá para eu virar o dono de alguma coisa que deu certo. Não algo novo e super especial, pare de mirar na porra do Steve Jobs, ao contrário, encontre aquele dono de um mercado que vive bem, que troca de carro todo ano e tem uma família bacana e mire neles. Você não precisa mais tentar atingir as estrelas e você pode só querer viver. Isso é do caralho. É uma grande lição, vai tirar todo o peso das suas costas quando tudo desabar, e as coisas tendem a dar errado muitas vezes por muitos motivos. Agora, também vai te arrancar aquele orgulho cedo e ignorante que viria para estragar a graça de tudo quando elas derem certo, e as coisas também muitas vezes dão certo.

Eu não estou falando de niilismo e negação absoluta, ah o mundo é absurdamente aleatório mesmo então eu não vou correr atrás de nada, nada disso, eu só estou falando para você fazer o seu, fazer aquilo que estiver ao seu alcance fazer naquele momento.

Vou dar um exemplo mais prático.

Você decide aprender um novo idioma, então no sábado pela manhã  você compra uma porrada de coisas que acredita que vai precisar para aprender o novo idioma, compra post-it, compra livros, assina cursos online, compra cadernos, canetas coloridas, compra romances no idioma alvo, você faz a farra. Depois disso você elabora um cronograma que contempla 3 horas por dia dedicadas ao novo idioma, começa segunda feira pela  manhã com estudo de gramática básica, não só segunda feira pela manhã mas segunda às 8 horas da manhã.

Segunda às 5:30 da manhã um ônibus erra a curva e acerta  lindamente aquele poste que fica perto da sua casa, você nunca deu muita moral para este poste mas ele é responsável por todos os serviços que chegam ao seu quarto, luz, internet, cara, tudo.

Conclusão, segunda, oito da manhã você está no telefone gritando com a atendente perguntando quando a porcaria volta ao ar, às 9 você terminou de tentar uma resposta satisfatória e pronto, passa o dia olhando com cara de tristeza para a o seu cronograma.  Quando menos espera você já está gastando todo o seu 3g em algum jogo viciante e babaquinha de celular, nada do idioma novo.

Pois bem, ao aceitar que a sua vida não é uma narrativa perfeita que está passando em algum cinema Indie em outro planeta algo óbvio fica evidente, às vezes dá merda, pois é e quando der merda? Quando der merda eu vou improvisar o plano B do melhor modo possível, então se eu não tenho luz nem net , é pegar o material comprado e tentar estudar do melhor modo, enfim, é fazer o que melhor der para fazer na hora que for possível fazer, nossa que frase bem construída para Coach.

Ao se deparar com a sua completa e absoluta mediocridade você se livra de um outro peso, o de ser obrigado a estar sempre feliz. Acredito que poucas coisas têm um potencial tão deprimente quanto a obrigatoriedade de estar satisfeito o tempo todo, de ter um ótimo emprego, de ter as tatuagens mais legais feitas nos melhores lugares e sair bem em todas as fotos. (comendo coisas gourmet). Você pode simplesmente perder a razão no trânsito um dia, ter tatuagens feias que dia você gosta e dias não gosta. Pode comer qualquer merda em qualquer lugar. Você sai dessa vida Kardashian e acorda para a vida real, feita de asfalto e sola de sapato.

Voltando ao exemplo acima, não é questão de apenas usar uma inteligência emocional automática e sair estudando, não, claro que pode xingar, reclamar, explodir, pô é questão de ser humano, o que não pode, é ficar sem estudar. Porque se você ficar sem estudar você fica sem aprender, é tão simples assim que parece até babaca.

E retornando ao início desse diálogo, todas às vezes que você sentir que o mundo deu uma guinada incompreensível dá para dizer que no pior dos casos existe o conforto de saber que é absolutamente normal e mundano não estar no controle, ter crises de ansiedade, chorar sozinho, entrar em pânico e pedir penico, tudo isso é normal, todo mundo vive assim. Leia isso outra vez, todo mundo vive assim, é por isso que existe o conceito de mediocridade, é seguro saber disso, é reconfortante. Logo depois é só levantar a cabeça e voltar a fazer o que quer que seja que ainda dá para fazer com os restos que sobraram, essa parte sim, pouca gente faz, a maioria vai para o 3g, para o joguinho. E essa passa a ser a sua narrativa.

 

Jpeg

Uma foto normal, apenas uma foto normal

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Sobre Bolsonaro

Jair Messias Bolsonaro é o nome do candidato eleito em 2014 para Deputado Federal pelo estado do Rio de Janeiro, Bolsonaro já soma mais 3 mandatos para o mesmo cargo além de outros cargos exercidos durante quase 30 anos de carreira política. Membro reformado das forças armadas, Bolsonaro é conhecido por ter um discurso militarista, o deputado também é conhecido por frases como “ser homossexual é comportamental” e “se o filho começa a andar com certas pessoas, vai ter aquele tipo de comportamento, achar que aquilo é normal”.

Jair soma processos por incitação ao crime de estupro e também uma queixa-crime por injúria, ambas apresentadas pela deputada Maria do Rosário, além de processos por injúria racial e o mais recente, um processo por quebra de decoro durante a votação para o impeachment da Presidente Dilma Rousseff.

Ultimamente Jair tem ganhado as mídias e a atenção dos veículos de comunicação de massa por ser considerado um candidato forte para as eleições de 2018, contudo, o que chama tanto a atenção neste candidato e porque ele é um excelente exemplo para demonstrar como o comportamento de massa aliados a descrença com a política podem atrair eleitores para um candidato com um currículo e declarações tão conturbadas.

Em 2004 Jair foi eleito deputado estadual pelo Rio de Janeiro com 99.700 votos, neste mesmo ano o número de votos brancos foi de 609.138 e nulos foi de 724.508, ou seja, mais do que 5 vezes o número de votos no candidato, no ano seguinte, em 2005 foi deflagrado o que depois ficaria conhecido como o escândalo do mensalão, trata-se de um esquema de compra de votos de parlamentares no Congresso Nacional com o intuito de aprovar leis que seriam proveitosas para os envolvidos, como por exemplo, licitações fraudulentas.

Este escândalo, trazido a público pelo então deputado federal Roberto Jefferson, escancarava que a base do governo recebia uma quantia mensal de 30 mil reais para votarem segundo as orientações solicitadas, deste jeito utilizando a máquina pública em favor de empresários, em agosto de 2007 o Supremo Tribunal Federal acatou a denúncia e abriu processo contra cerca de quarenta envolvidos, entre eles nomes como José Dirceu, Roberto Jefferson, Genoíno, todos importantes para o então governo e expoentes no cenário político Brasileiro.

Este escândalo refletiu diretamente nos resultados das eleições de 2010, o número de votos brancos chegou a 722.756 e o número de votos nulos cresceu 85% chegando à 851.070, neste mesmo ano de 2010, Jair foi eleito com 120.646 votos, um valor 82% maior quando comparado ao primeiro resultado.

Em março de 2014 deu-se início a chamada Operação Lava jato, a Polícia Federal investiga lavagem e desvio de dinheiro envolvendo grandes empreiteiras, políticos, grandes empresários, diversos nomes do setor público além da estatal Petrobras. Um escândalo de proporções ainda não calculadas, que lançou uma desconfiança e reforçou no imaginário coletivo a imagem de políticos corruptos, nas eleições de 2014 o número de votos brancos cresceu 128% chegando a 783.556 e os votos nulos ultrapassou um milhão, chegando a 1.152.755 votos, ou seja, 159% maiores do que o valor apresentado em 2006.  Neste mesmo ano nas eleições gerais o candidato Jair foi eleito com 464.572 votos, 465% a mais se comparado ao resultado de 2004.

É possível analisar com estes números que os escândalos de corrupção desencadearam um sentimento de antipolítica, sentimento este que soube ser cooptado por políticos profissionais como Jair Bolsonaro.

Jair que se vale de discursos apologéticos a violência como “se o bandido tiver uma metralhadora, o policial deve ter uma bazuca” e alimenta um imaginário que virou lugar comum com as seguidas crises das instituições, Jair apresenta uma mensagem de que a lei e a ordem exigem o poder violento do estado, de acordo com este raciocínio somente um poder presente e forte, assim como armado, seria capaz de “recolocar o Brasil em um caminho seguro”, seguro para quem? Qual o custo?

Acontece que o deputado Jair Bolsonaro não inventou a descrença com a política, ela sempre existiu, frases como “rouba mas faz”, “vou votar no menos pior”, “vou votar neste para não vencer aquele” permeiam a existência política de todos os cidadãos desde a fundação da republica, tudo o que Jair Bolsonaro aprendeu a fazer foi redirecionar este sentimento em favor próprio, apresentando-se como um militar na política, Jair se apropria da imagem de cidadão honesto e pega para si a lendária disciplina do quartel.  Utilizando-se de recursos ofensivos aliados aos sentimentos de estranheza que o crescimento dos movimentos LGBT e femininos causam no público conservador,

Jair soube compreender a derrocada dos partidos de esquerda através das operações que iniciaram com o mensalão e se desdobraram com a Lava Jato.

Fazendo assim, Jair coloca como sinônimos as lutas sociais; dos movimentos feministas, LGBT e legalização da maconha; aos escândalos que atingiram os partidos de esquerda, Jair amarra com o seu discurso os escândalos de corrupção que tem rondado os jornais desde 2005 com os movimentos atuais tipicamente de viés socialistas, deste modo, canalizando o sentimento de incerteza com o futuro premente na sociedade além de dar vozes ao racismo, a xenofobia e machismo que são comuns e estão presentes na maioria das sociedades.

Bolsonaro triunfa pois é uma voz para aqueles que têm medo de expressar suas opiniões preconceituosas, sentimentos de incerteza com o futuro, o estranhamento pelo diferente, e preferem faze-lo através do voto, aliado a isso, os eleitores de Bolsonaro, em sua maioria ferrenhos seguidores, conseguem cooptar mais aliados utilizando o redirecionamento de um sentimento existente, neste caso a descrença com as instituições políticas, e o reforço pessoal, feito através de likes, passeatas e marchas.

O discurso do deputado Bolsonaro é barulhento e faz parte da sua táctica que ele se mantenha assim, ele soube compreender que as crises institucionais e a crise econômica podem ser amarradas, mesmo que de maneira falaciosa, aos movimentos sociais, por consequência, ele dá uma sensação de proteção para as pessoas que se sentem assustadas com as mudanças bruscas que a sociedade vem sofrendo e que não estão preparadas para aceitar a participação “do outro” na sociedade, como a maior participação da mulher, o direito ao casamento entre casais homo afetivos e a participação no mercado de trabalho de estrangeiros, enquanto a esquerda, procurando compreender a si mesma parece não desconfiar que o golpe poderá vir duro.

É tempo de baixar bandeiras e trocar ideias, as camisas devem ser ignoradas para que possamos dar maior valor as vozes, é tempo de nos ouvirmos, e caso isso venha a acontecer, caso possamos parar e ouvir o que estamos dizendo uns aos outros chegaremos todos a conclusão que em uma democracia não existe espaço para um candidato que, entre outros argumentos, apoia discursos antidemocráticos.

No fim fica a pergunta, será esse o melhor que o conservadorismo pode propor? Uma caricatura de si mesma.

E a esquerda, não poderá compreender que para vencer o medo e a desconfiança da sociedade conservadora deve evitar incutir ainda mais medo na sociedade das classes baixas?

Nesta guerra de medos e previsões do apocalipse é fácil dizer quem perde.

 

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Cotidiano, Filmes, séries e livros

Você vai aprender algo novo hoje

Se você chegar até o final deste texto eu te prometo que você vai aprender algo novo.

Você vai planejar um casamento, o seu.  A primeira coisa a fazer é concluir a lista de convidados, claro, é com ela que tudo será decidido, dependendo do número de convidados você decide sobre um Buffet maior ou menor, quantas mesas, cadeiras, a comida, meu irmão a comida é o principal, é para isso que muita gente estará lá, sem a comida não tem nem do que falar mal.

Além de tudo, os convidados ditam o clima da festa, dependendo do perfil deles é que você consegue selecionar a banda, a iluminação e a hora adequada do jantar.

Essa tarefa parece tão simples, ora, basta saber quem você quer que vá e pronto, numerar, opa, deu 150, fechado. É isso? Não é isso. Não é isso, pois sempre terão os legais com mochila; O legal com mochila é aquele sujeito que você adora, mas detesta a esposa dele, ou aquela outra muito bacana que começou a andar com um babaca, além do legal com mochila existe o joão sem braço, ele não foi convidado, você não tem contato nenhum com o infeliz mas de algum modo o joão sem braço aparece na festa, sabe-se lá das profundezas de qual grupo essa criatura conseguiu a informação do seu casório e lá está ele, aquele joão sem braço comendo, dando tapinhas nas costas do seu amigo e cagando pela festa toda.

Fechado o número é hora de pensar no Buffet e nos arranjos

O buffet praticamente se encontra sozinho, você escolhe um meio termo para a sua família e a outra família e pronto, um local com espaço suficiente para a renca e pau no gato, já os arranjos é um pé no saco, um pé no saco porque você não imagina a quantidade de diferenças que um companhia é capaz de produzir de castiçais, é isso, uma coisa absolutamente inútil atualmente tem uma gama inteira de diferenças sutis, e não se empolgue, ele será inútil no seu casamento também, você não vai confiar a iluminação da sua festa em um castiçal que tem no lugar da vela uma lampadinha para lá de estúpida.

São infinitos castiçais, gregorianos, venezianos, dinamarqueses, alemães, modernos, retros, clássicos (que são uma variante dentro da variante gregoriana) e depois de uma luta hercúlea para selecionar o castiçal correto acontece o mesmo para as mesas, para as cadeiras, para as cortinas, para tudo, a coisa vai tomar mesmo forma na hora que te esfregarem na tua cara que castiçal escolhido não combina com a cadeira, não rima com a cortina, não orna com a mesa e não se encaixa com a toalha.

Em principio você vai tentar racionalizar sobre o problema,  deve existir algum segredo, sete passos rápidos para ter bom gosto, eles devem combinar, você busca o melhor de si para dizer “hum, este combina com este outro” e olha suplicante para a vendedora que em silêncio sente repulsa pela sua escolha, aos poucos a sua confiança diminui, eu não sei escolher, a coisa se transforma, não é mais uma cadeira que vai participar da sua existência por apenas uma noite, é o seu orgulho que está em jogo e todo o sucesso do seu futuro se materializa naquela escolha, o guardanapo deve ser dobrado de frente ou de revés?

O tempo passa, você já conseguiu resolver as flores e a decoração, a banda é bacana, os músicos são simpáticos, o set-list é agradável, e não poucas coisas começam a se encaixar sozinhas e você honestamente acredita que pegou o jeito para a coisa, orra eu poderia viver disso hein, depois dos primeiros meses tudo meio que tomou vida própria e é como se a festa tivesse decidido se ajeitar sozinha

Meu terno serviu perfeitamente, você encontrou o seu vestido? A sua mãe melhorou daquela gripe? Fiquei sabendo que o primo Luís soube da festa, te amo, te amo.

 

É o dia, você está lá dentro, todos estão sentadinhos, vendo daqui, com a casa cheia, acho que a escolha dessa igreja foi mesmo a correta, que horas são? A impressão que eu tenho é que todos estão impacientes, todos não, na verdade, os únicos impacientes são aquele núcleo próximo ao bom-para-nada primo Luís, que descarado, ele deve estar falando asneiras para todos em volta. A Júlia veio, que bacana.

A música toca, as portas abrem, lá vem ela, lá vem à noiva toda de branco, minha nossa, todos ficaram de pé, existe um senso de urgência, a atmosfera se fecha, o teto da igreja parece desabar lentamente sobre nós, como naqueles joguinhos, o tempo conta e ele vem descendo, vem descendo, que calor aqui.

Ela está linda, claro que está, mas de onde veio esse sufoco? Eu deveria estar emocionado não deveria, desde quando a felicidade é claustrofóbica? Não estou entendendo nada, um suadouro terrível, acho que estou me comportando esquisito, a sorte é que não estão olhando para mim e sim para ela. E ela vem, deveria levar tanto tempo assim até ela chegar aqui? Quanto tempo eu levei? Minha nossa parece para sempre, mais próxima agora, se eu respirar fundo e me concentrar talvez tudo isso acabe logo e eu volte ao meu estado normal, vou apenas ignorar que eu não sinto os meus pés, não sei o que fazer com as mãos e, honestamente, não sei qual é o atual estado do meu rosto.

Tentar manter uma aparência normal é má coisa, na certa vou apenas deixar a carranca mais esquisita, relaxar, vou contar até algum número, já sei, vi um vídeo, inspira cinco segundos, isso, segura cinco segundos; solta cinco segundos. Está melhor, estou melhor.

Ela está tão perto agora.

Essa não é ela, quero dizer, o vestido é o dela. Existem semelhanças assustadoras, tipo quando você vê no meio da rua alguém muito parecido com quem você estudou, mas, inseguro de saber se é ou não é prefere nem dar oi, é isso, não é ela, o pai dela ficou louco? Porque este idiota está caminhando de braços dados com uma moça que claramente não é a sua filha e nem a minha futura esposa? Que merda está acontecendo, puxa cinco, segura cinco, solta cinco. Não pode ser uma brincadeira porque a mãe chora copiosamente, a emoção é geral.

A boca do padre é vagarosa e ele usa os lábios pausadamente, de todo modo, as palavras soam, soam rápido, quando elas chegam é como se eu estivesse preso ao capô de um carro a cento e vinte quilômetros por hora, é absurdo.

Já chegou na parte do sim? É o sim? Deve ser. Eu digo sim, eu digo sim ou eu disse sim? Eu não sei mais, fazem quantos anos? Já são vinte querida?

Ela não responde, ela nem fala comigo, desde o primeiro dia ela sequer me dirigiu uma palavra, afora os momentos de sexo e algumas outras vezes que eu ouvi ela falando com o professor da Melina são raros os dias que sequer escuto a sua voz. É normal, deve ser normal, puxa cinco, segura cinco e solta cinco.

Não existia outro modo de te explicar como é ler um livro do Kafka e eu espero ter despertado em você a curiosidade para pegar em um, é assim mesmo, a principio ele começa se atendo a detalhes que parecem vazios e aos poucos te enfia dentro de um pesadelo, sem ar, sem janelas e sem saber por onde andar.  Agora vai ali, deixa um comentário, discorde, critique e compartilha com alguém.dicas-de-como-poupar-para-o-casamento

foto: http://www.wefashiontrends.com/casamento/

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