Filmes, séries e livros

Você deve assistir “Até o último homem” e entender o que é um bom filme para todos os públicos

One more… Please give one more…

Existem duas leituras possíveis para este filme, você pode olhar para ele como uma produção ambiciosa dirigida pelo Mel Gibson, se o Mel Gibson precisa mesmo de apresentações aqui vai, ele estrelou Coração Valente (1995) e dirigiu o polêmico A paixão de Cristo (2004), agora, é possível assistir “Até o último homem” como uma história bem contada e se emocionar com o fato do filme ser baseado em fatos reais e com um final muito satisfatório.

Andrew Garfield estava fora do radar de todo cinéfilo quando interpretou o Homem Aranha, contudo, após atuar como Padre Rodrigues no maravilhoso Silêncio dirigido pelo Scorsese  fica impossível não levar este ator a sério, afinal, o Scorsese não daria o papel principal de um dos seus filmes mais queridos se este ator não fosse muito capaz.

Assim como foi no filme do Scorsese aqui Andrew incorpora o papel de um homem religioso, diferente da outra vez neste ele que se alista no exército para atuar como médico, a principio o roteiro não apresenta nenhuma novidade mas quando você descobre que esse homem se nega a pegar em armas e que tudo é baseado em fatos reais o filme ganha um tom novo.

Gibson abre o filme com uma cena de batalha que não peca em nenhum momento,

Com a mesma competência que ele mostrou em A Paixão de Cristo, o diretor repete a paciência e a persistência em mostrar os horrores da violência de perto, existem muitas feridas abertas nas cenas de batalha e não pense que você verá apenas fumaça e aquela cacofonia habitual dos filmes menos compromissados.

Gibson pretende demonstrar a violência e faz isso com cenas bem ensaiadas de dor e muitos corpos expostos, quando uma bomba explodir perto de um soldado ele não vira uma nuvem de fumaça, ele vira entranhas e pernas voando, nada que se pareça ao estilo gore ou sangue apenas pelo prazer do sangue, Mel tem uma mensagem, uma guerra faz feridos e os feridos são assim, para os de estomago mais sensível Mel não mantém a violência por muito tempo e mesmo a sua crueza é moderada.

Após a cena inicial Mel Gibson segura o ritmo do filme para apresentar Desmond T. Doss (interpretado na infância por Darcy Bryce e adulto por Andrew Garfield), uma criança formada em um lar desfeito, filho de um ex combatente da primeira guerra mundial e uma dona de casa, Desmond e o irmão são criados neste lar habituados a constante violência do pai, Hugo Weaving, que atuou no filme O Hobbit e Capitão América faz um papel muito sólido aqui, o trabalho de voz e dos gestos é muito convincente.

O primeiro ato funciona como um filme de romance despretensioso, Desmond conhece a enfermeira Dorothy Schutte (Teresa Palmer) e a aproximação do casal se dá de forma natural, o contra ponto deste ato é a violência assombrando Desmond, como pano de fundo para o casal existe a ameaça da guerra, é importante frisar que os recursos de narrativa utilizados neste primeiro ato são muito interessantes e a constante presença da guerra é bem utilizada, seja por uma cicatriz na pele de um veterano ou cenas de violência implícita em casa. É gostoso assistir a um filme que não fica te explicando a todo momento o que está acontecendo e te permite interpretar as cenas.

Hacksaw-Ridge-bilde-3

A partir do segundo ato a percepção de Desmond a respeito da sua realidade muda completamente, é possível enxergar o arco da personagem caminhando para um visão mais madura mas nem por isso menos idealista, em alguns momentos você pode incorrer no erro de acreditar que toda a fibra de Desmond está enraizada unicamente na teimosia, afinal, como um soldado iria para a guerra se recusando a sequer tocar em uma arma? De todo modo, com o desenvolver das cenas fica claro de onde ele tira seu vigor e todo o desenvolver do filme ganha cores novas, ao perceber que Desmond não se trata de um pacifista, ele é um soldado, um soldado que se nega a matar.

No quartel somos apresentados a diversos outras personagens, existe clássico sargento escandaloso que exige respeito, disciplina e molda seus soldados como ferro quente, na base da marretada. Existem os amigos e os desafetos, Gibson foi confiante o bastante para não tentar reinventar a roda aqui.

Como acontecia nas cenas românticas, Mel Gibson não tentou fazer um filme autocongratulatório ou prepotente, as cenas do Quartel e todos os problemas envolvendo essa parte do filme são tratadas de modo claro, com pouca exposição e sem aqueles roteiros truncados, cheios de filosofias e dificuldades, tudo acontece de maneira simples para entender e é possível acompanhar o estado de espirito de todas as personagens já na superfície.

Com o desenvolver do roteiro o público é convidado a refletir sobre quem são os antagonistas da história e é isso que faz deste filme tão prazeroso e torna a sua história acessível para todos, para os que adoram filmes de guerra terão suas cenas de heroísmo, para quem gosta de filmes românticos vão encontrar cenas confortáveis como tomar chá vendo série e para quem gosta de História, aquela com H e feitos intrigantes, vai encontrar uma boa prosa.

A cena final é puro Mel Gibson, mais ambiciosa e explicita essa cena acabou transformando o soldado Desmond em algo além do que ele já era, para mim é uma cena que sobra e eu teria cortado ela fora do filme, teria cortado pois os feitos do personagem no decorrer da história já são o bastante para torna-lo especial, não havia nenhuma necessidade de uma redenção final, de todo modo, ainda assim não diminui o valor do filme. Após a última cena são mostrados relatos das pessoas reais e essa última parte é muito divertida e é um ótimo modo para encerrar o relato.

Até o último homem é um filme sobre a segunda guerra mundial que se destaca do grande mar de filmes com o mesmo tema, é um bom filme sem ser cabeçudo e é acessível sem cair no besteirol. Vale a pena assistir, para os que já viram e concordam ou discordam deixem o seu comentário, seja aqui ou na publicação onde viram este link. Obrigado.

16409494_1644084835885924_1475548859_o

Standard
Filmes, séries e livros

Get Out (Corra!)

get-out-20172203

Get out é um filme de terror lançado em 2017,  o filme foi escrito e dirigido por Jordan Peele (diretor que antes desta produção trabalhava com comédia) no filme também participam os atores Daniel Kaluuya e a atrizes Alison Willians e Catherine Keener. Kaluuya é muito conhecido do público Brasileiro pelo episódio estrelado por ele de Black Mirror e a atriz  Catherine Kenner tem participações em diversos outros filmes conhecidos entre eles Into the Wild (Na Natureza Selvagem – Dirigido pelo Sean Penn).

Get out conta a história de um casal de namorados que resolve visitar os pais da moça em uma pequena cidade do interior Americano, uma premissa  bem simples que só funciona por que a primeira cena do filme é muito bem dirigida e abre com muito suspense, além de prometer cenas mais intensas.

Embora o filme seja bem dirigido e a fotografia não prejudique em nada as cenas, o primeiro ato é repetitivo e até clichezendo, as poucas cenas que se destacam da fórmula “namorado inseguro com medo dos pais da namorada” acabam sendo os poucos momentos de tensão que não sustentam com eficienta toda a exposição que o diretor deixou para este inicio.

De todo modo existe um plano sequência muito interessante que é no momento em que Chris (o mocinho) é apresentado aos pais da mocinha, aqui o diretor posiciona a câmera em visões distantes e planos simétricos causando um estranho senso de ordem que destoa com o diálogo do Pai, a cena se desenvolve com pequenas doses de desconforto quem funcionam muito bem para devolver a nós o interesse pelo filme, honestamente quase perdidos com as primeiras cenas.

É preciso dizer que o roteiro está sustentado pela relação entre público e protagonista, onde quando um não sabe de alguma coisa o outro também não sabe, isso é uma linguagem quase padrão em filmes de terror/suspense e aqui não prejudica as cenas, contudo,  após a apresentação das personagens principais o clima do filme acaba ficando monótono.

Chris é apresentado a todo momento para situações confusas e inquietantes mas que acabam não funcionando como deveriam, em algumas cenas eu honestamente fiquei mais irritado com o ritmo lendo e indeciso da cena do que nervoso com o que poderia acontecer com a personagem principal.

Embora o mocinho seja carismático e o trabalho do ator tenha sido muito bem feito, principalmente as expressões, o cara é uma máquina de criar caras e bocas, os problemas apresentados na maioria das situações não me prenderam, em uma cena específica na festa onde Cris resolve tirar uma foto de outra personagem o filme acaba entregando um spoiler de si mesmo que não ficou nada bom além de estabelecer uma alternativa muito pouco criativa.

Filmes de terror são problemáticos, é preciso colocar o público em sintonia com o que acontece na tela de modo que pedra fundamental para todo filme de terror é que o espectador acredite no que está acontecendo, isso é primordial, o público deve acreditar no que está acontecendo, infelizmente em Get out toda a trama é sustentada sobre uma premissa que se torna mais ridícula com o desenvolver do filme.

Para piorar, as cenas de suspense são entrecortadas por cenas de alivio cômico francamente saídas de programas de sketch (local onde o Diretor tem maior segurança). Você acaba dando risada, o ritmo se quebra e o filme volta a estaca zero no quesito “manter o público na ponta da cadeira de nervosismo”.

No último ato, quando todo o clima já está estabelecido e nós já sabemos quem, que, o que, quando, como e o por que de toda a trama, o filme acaba caindo em uma exposição absolutamente contra clímax, é exatamente isso o que acontece, a personagem é sentada em uma cadeira e na frente dela uma televisão mostra passo-a-passo do que foi feito, por que está sendo feito, como será feito, quando será feito e por quem está sendo feito. É como aqueles desenhos antigos em que o vilão prende o herói e antes de desintegrar a cabeça dele com um raio laser resolve, a título de autopromoção, contar o seu plano secreto. Ruim, não funciona, neste momento foi quando eu disse – ok, é isso, que filme ruim – mas aí, para a minha surpresa, foi quando o filme ficou legal.

Nas cenas finais o filme deixa de se levar tão a sério e cai na escatologia de filmes de terror, você vai ver muito xarope de groselha fazendo o papel de sangue aqui, além disso, uma solução final dada pelo mocinho para poder vencer o vilão que ia desintegra-lo com o raio laser me fez dizer – É, ISSO AÊ, PORRA, TOMA ESSA SEU BOSTA, VAI PRA CIMA DELES.

Get out é um filme de terror que salvo algumas cenas não aterroriza, contudo, nem tudo são defeitos; O humor crítico contra o racismo é muito inteligente e nada clichê, a trilha sonora foi bem utilizada, a fotografia é competente e os planos sequência são muito bem programados, o lado negativo é que se você está esperando ver um filme de terror que te faça suar vai se decepcionar muito, este filme possuí cenas manjadas como “o cientista maluco no seu laboratório”, “a vilã que ostenta os troféus de vitimas antigas pregadas na parede enquanto procura uma vítima nova”, “o irmão mais novo problemático, junkie que procura ter um olhar perturbador” enfim, é um pacote completo de clichês.

Agora se você só quer ver um filminho bacana, com boas sacadas, bem dirigido e não se importar muito com o final, este é um ótimo filme para passar o tempo.

Standard
Filmes, séries e livros

O Silêncio de Martin Scorsese

No ano de 2016 o impressionante diretor Martin Scorsese lançou o filme Silêncio (Silence), baseado na obra de Shusaku Endo de mesmo nome o filme apresenta a história de dois padres portugueses na missão de reencontrar seu tutor perdido no Japão do período de 1630, época em que o cristianismo era brutalmente oprimido no país.

Scorsese é um grande admirador do livro e utiliza o seu filme como forma de fazer reverência à obra, a versão impressa no Brasil (editora TusQuets) possui a introdução escrita pelo diretor (seja na versão original ou em português), e nas palavras do diretor “Silêncio… vai ficando cada vez mais precioso para mim à medida que os anos passam – trata justamente do particular e do universal. E, ao fim e ao cabo, a preeminência dada ao universal é esmagadoramente maior. (Martin Scorsese)”.

silence_21-11-2016

Scorsese gravou um filme impregnado com odores, o impacto começa quando os padres  Rodrigues (Andrew Garfield) e Garupe (Adam Driver) entram em contato com o seu guia Kichijiro (Yosuke Kubozuka).

Rodrigues é um padre idealista e aparentemente inflexível que encontra em Kichijiro o seu contra ponto. Garoupe funciona como uma extensão da personalidade de Rodrigues, ora como seu conselheiro, ora como seu aprendiz. O entrosamento dos padres diante do terror que se estabelece lentamente no vilarejo é a muleta de equilíbrio para que nenhum deles entre em desespero.

Desde as primeiras cenas as personagens são expostas a um mundo rançoso, engordurado e moroso. A paleta de cores escuras e mórbidas é exposta pela iluminação natural e todo o ambiente é trabalhado para realçar o aspecto decadente da sociedade.

Como dito pelo padre em um dos momentos “são animais, que vivem e morrem como animais”. 

O filme se desenvolve de maneira gradativa, quase imperceptível, a situação dos padres se dissolve e se mistura com a situação do vilarejo em que ficam escondidos, mesmo as cenas inocentes pedem que o expectador mantenha-se alerta, alerta por que a selvageria silenciosa e sorridente do adversário dos cristãos não deixa folga para descansos.

No livro, assim como no filme, a violência e a perseguição dos cristão estão representadas na pele do senhor de Nagasaki chamado de O Inquisidor Inoue (Issey Ogata), Inoue é a voz e quem estabelece os castigos para os seguidores do cristianismo, contudo, o filme é muito mais denso para possuir apenas um antagonista…

Ao desenvolver dos acontecimentos o padre Rodrigues começa a levantar questões importantes a respeito da sua missão no Japão, o peso das suas ações, a capacidade de interpretar no silêncio a força da sua fé e como manter a coragem diante da injustiça.

Neste filme o diretor deixa de lado a violência muito mais evidente dos outros projetos para se focar em uma violência constante e gradativa, o exemplo melhor acabado desta técnica encontra-se em uma cena onde três habitantes do vilarejo são culpados por envolvimento com o cristianismo e condenados a um castigo de especial crueldade.

O convite que Scorsese nos faz nessa cena é o convite ao abismo. Neste momento dá inicio uma segunda batalha para os padres, a primeira que era encontrar seu tutor e a segunda, será que o catecismo destes homens e mulheres vivendo a beira da animalidade é um preço justo para todo o sofrimento causado?

silence-750x380

Como acontece no livro, Scorsese não se esconde dos questionamentos mais profundos, qual é o preço da fé? Até onde é possível que o corpo suporte as dores físicas para manter a fé? Qual é o limite entre a crença e a pura insanidade? Como a fé age em pessoas diferentes de culturas diferentes?

Evidente que o diretor não responde nenhuma destas perguntas, não por covardia mas por serem questões absolutamente particulares, e relembrando as palavras do diretor “trata justamente do particular e do universal. E, ao fim e ao cabo, a preeminência dada ao universal é esmagadoramente maior”.

Silêncio é um filme exigente, não entrega nada e não faz promessas, é preciso ter paciência e estar atento para o valor das pequenas nuances e compreender que o mais corriqueiro dos diálogos pode estar carregado de significado.

Um filme de personagens complexas, cenas angustiantes, cenários decadentes e muitos odores, não é para paladares destreinados, um expectador desavisado poderia interpretar o filme como uma propaganda ao cristianismo pura e simples, e talvez isso também seja verdade, entretanto, com uma segunda visitada a este Japão de 1600 é possível encontrar em Silêncio um eco de 2017, e este é o segredo da grande Arte, falar em todos os tempos.

silence-scorsese

Standard
Filmes, séries e livros

Okja e os nossos olhares

Dirigido pelo talentoso Joon-Ho Bong, que também dirigiu o excelente filme O Expresso do Amanhã, Okja conta muitas histórias que têm em comum a capacidade de te retirar da indiferença.

Assim como no filme de 2013, em Okja o diretor opta por personagens caricatas para construir o clima do filme e manter a atmosfera leve, utilizando a personagem Mija, interpretada pela encantadora Seo-Hyun-Ahn,  para estabelecer no primeiro ato a amizade entre elas, o filme sabe rir de si mesmo e constrói o argumento sobre a relação de amor entre as personagens.

O Diretor demonstra grande habilidade ao instigar o espectador com sugestões singelas sem fazer um grande trabalho panfletário. O primeiro ato desmente aqueles que pensavam que veriam um filme escancarado sobre vegetarianismo/veganismo ao mesmo tempo que sustenta um pano de fundo poderoso para ser explorado nos atos seguintes.

O segundo ato é sufocante, toda a construção lúdica e singela do primeiro ato só tornam as cenas do segundo , sugeridas ou explicitas, ainda mais estarrecedoras.

É desesperador como o diretor te coloca impotente diante de cenas abertamente violentas.

O contraste com o primeiro ato é chocante, é como se o diretor tivesse pintado um lindo quadro com cores claras, infantis, tons pastéis para depois rasga-lo de um lado ao outro com um estilete.

Mesmo munido de boas cenas com alivio cômico o filme Okja vai te incomodar, isso porque longe de ser uma simples propaganda vazia de alguma nova moda ele demonstra, como em um manual de instruções, que alimentar-se de criaturas vivas causa dor a elas, ponto final.

A lanterna que o filme joga para este aspecto não vêm carregada de informações e estatísticas cansativas, normalmente presentes nos mais conhecidos documentários sobre o tema, contudo, o filme te encontra no olhar, é o olhar da menina diante dos acontecimentos, é o olhar de Okja que desgastada, pesada e desengonçada, procura sobreviver.

O filme Okja é potente porque te desarma por onde você não tem defesa, nascemos procurando o olhar de nossas mães, existem diversos estudos sobre como interpretamos e reagimos a simples olhares, obras inteiras de poesia dedicadas ao olhar. Okja é potente e honesto, quando a arte decide dar aos olhos dos super porcos luz e compreensão o espectador é tomado por empatia. Okja levanta questionamentos, será que se pudéssemos ou se tivéssemos que olhar nos olhos os animais que comemos diariamente ainda assim teríamos a mesma coragem?

É pelos olhos que Okja demonstra sua tristeza e a sua dor transformadas em ira. É também pelos olhos de Okja que o filme apresenta a cena mais insanamente violenta e sincera do filme.

Como referência para a ambientação do último ato foram usados abatedouros e em algumas cenas é possível até encontrar um reflexo de campos de concentração, uma analogia muito comum entre os militantes dos grupos pró -animais, mas que aqui é feito com tal controle e lucidez que tira deles todo o peso cansativo e modorrento, normalmente encontrados naqueles documentários que só têm efeito para quem já está propenso a mudar de opinião.

A última cena funciona, funciona pelo poder caricato das personagens, funciona pelo ambiente claustrofóbico e como  em todo o filme funciona pelos olhares.

Não é pedido para você assistir Okja e deixar de consumir alimentos derivados de animais, e eu nem espero que isso aconteça e não encontrei informações do diretor desejando que isso aconteça, o filme Okja, como foi o filme O Expresso do amanhã, é para você questionar a si mesmo, descobrir-se, checar de perto seus hábitos.

É para pegar tudo aquilo que você entende como fixo e pré-estabelecido e colocar em um microscópio.

Talvez você descubra que nada precisa acontecer, que a sua vida está plena e que seus hábitos são todos, e sem exceção, saudáveis, que tristeza seria se essa for a sua resposta.

Agora talvez, e é para isso que existe a arte, você descubra uma visão nova, um pequeno ajuste, não uma grande revolução particular mas um ajustezinho, aquela mudança singela e definitiva em você e aí podemos dizer que o trabalho foi bem feito.

Assim como os filmes aparentemente mais bobos tem um poder de transformação enorme, Okja vem para entra no hall de filmes importantes para serem vistos, mesmo que seja só para discordar dele.

okja-capa

Standard
Cotidiano, Filmes, séries e livros

Você vai aprender algo novo hoje

Se você chegar até o final deste texto eu te prometo que você vai aprender algo novo.

Você vai planejar um casamento, o seu.  A primeira coisa a fazer é concluir a lista de convidados, claro, é com ela que tudo será decidido, dependendo do número de convidados você decide sobre um Buffet maior ou menor, quantas mesas, cadeiras, a comida, meu irmão a comida é o principal, é para isso que muita gente estará lá, sem a comida não tem nem do que falar mal.

Além de tudo, os convidados ditam o clima da festa, dependendo do perfil deles é que você consegue selecionar a banda, a iluminação e a hora adequada do jantar.

Essa tarefa parece tão simples, ora, basta saber quem você quer que vá e pronto, numerar, opa, deu 150, fechado. É isso? Não é isso. Não é isso, pois sempre terão os legais com mochila; O legal com mochila é aquele sujeito que você adora, mas detesta a esposa dele, ou aquela outra muito bacana que começou a andar com um babaca, além do legal com mochila existe o joão sem braço, ele não foi convidado, você não tem contato nenhum com o infeliz mas de algum modo o joão sem braço aparece na festa, sabe-se lá das profundezas de qual grupo essa criatura conseguiu a informação do seu casório e lá está ele, aquele joão sem braço comendo, dando tapinhas nas costas do seu amigo e cagando pela festa toda.

Fechado o número é hora de pensar no Buffet e nos arranjos

O buffet praticamente se encontra sozinho, você escolhe um meio termo para a sua família e a outra família e pronto, um local com espaço suficiente para a renca e pau no gato, já os arranjos é um pé no saco, um pé no saco porque você não imagina a quantidade de diferenças que um companhia é capaz de produzir de castiçais, é isso, uma coisa absolutamente inútil atualmente tem uma gama inteira de diferenças sutis, e não se empolgue, ele será inútil no seu casamento também, você não vai confiar a iluminação da sua festa em um castiçal que tem no lugar da vela uma lampadinha para lá de estúpida.

São infinitos castiçais, gregorianos, venezianos, dinamarqueses, alemães, modernos, retros, clássicos (que são uma variante dentro da variante gregoriana) e depois de uma luta hercúlea para selecionar o castiçal correto acontece o mesmo para as mesas, para as cadeiras, para as cortinas, para tudo, a coisa vai tomar mesmo forma na hora que te esfregarem na tua cara que castiçal escolhido não combina com a cadeira, não rima com a cortina, não orna com a mesa e não se encaixa com a toalha.

Em principio você vai tentar racionalizar sobre o problema,  deve existir algum segredo, sete passos rápidos para ter bom gosto, eles devem combinar, você busca o melhor de si para dizer “hum, este combina com este outro” e olha suplicante para a vendedora que em silêncio sente repulsa pela sua escolha, aos poucos a sua confiança diminui, eu não sei escolher, a coisa se transforma, não é mais uma cadeira que vai participar da sua existência por apenas uma noite, é o seu orgulho que está em jogo e todo o sucesso do seu futuro se materializa naquela escolha, o guardanapo deve ser dobrado de frente ou de revés?

O tempo passa, você já conseguiu resolver as flores e a decoração, a banda é bacana, os músicos são simpáticos, o set-list é agradável, e não poucas coisas começam a se encaixar sozinhas e você honestamente acredita que pegou o jeito para a coisa, orra eu poderia viver disso hein, depois dos primeiros meses tudo meio que tomou vida própria e é como se a festa tivesse decidido se ajeitar sozinha

Meu terno serviu perfeitamente, você encontrou o seu vestido? A sua mãe melhorou daquela gripe? Fiquei sabendo que o primo Luís soube da festa, te amo, te amo.

 

É o dia, você está lá dentro, todos estão sentadinhos, vendo daqui, com a casa cheia, acho que a escolha dessa igreja foi mesmo a correta, que horas são? A impressão que eu tenho é que todos estão impacientes, todos não, na verdade, os únicos impacientes são aquele núcleo próximo ao bom-para-nada primo Luís, que descarado, ele deve estar falando asneiras para todos em volta. A Júlia veio, que bacana.

A música toca, as portas abrem, lá vem ela, lá vem à noiva toda de branco, minha nossa, todos ficaram de pé, existe um senso de urgência, a atmosfera se fecha, o teto da igreja parece desabar lentamente sobre nós, como naqueles joguinhos, o tempo conta e ele vem descendo, vem descendo, que calor aqui.

Ela está linda, claro que está, mas de onde veio esse sufoco? Eu deveria estar emocionado não deveria, desde quando a felicidade é claustrofóbica? Não estou entendendo nada, um suadouro terrível, acho que estou me comportando esquisito, a sorte é que não estão olhando para mim e sim para ela. E ela vem, deveria levar tanto tempo assim até ela chegar aqui? Quanto tempo eu levei? Minha nossa parece para sempre, mais próxima agora, se eu respirar fundo e me concentrar talvez tudo isso acabe logo e eu volte ao meu estado normal, vou apenas ignorar que eu não sinto os meus pés, não sei o que fazer com as mãos e, honestamente, não sei qual é o atual estado do meu rosto.

Tentar manter uma aparência normal é má coisa, na certa vou apenas deixar a carranca mais esquisita, relaxar, vou contar até algum número, já sei, vi um vídeo, inspira cinco segundos, isso, segura cinco segundos; solta cinco segundos. Está melhor, estou melhor.

Ela está tão perto agora.

Essa não é ela, quero dizer, o vestido é o dela. Existem semelhanças assustadoras, tipo quando você vê no meio da rua alguém muito parecido com quem você estudou, mas, inseguro de saber se é ou não é prefere nem dar oi, é isso, não é ela, o pai dela ficou louco? Porque este idiota está caminhando de braços dados com uma moça que claramente não é a sua filha e nem a minha futura esposa? Que merda está acontecendo, puxa cinco, segura cinco, solta cinco. Não pode ser uma brincadeira porque a mãe chora copiosamente, a emoção é geral.

A boca do padre é vagarosa e ele usa os lábios pausadamente, de todo modo, as palavras soam, soam rápido, quando elas chegam é como se eu estivesse preso ao capô de um carro a cento e vinte quilômetros por hora, é absurdo.

Já chegou na parte do sim? É o sim? Deve ser. Eu digo sim, eu digo sim ou eu disse sim? Eu não sei mais, fazem quantos anos? Já são vinte querida?

Ela não responde, ela nem fala comigo, desde o primeiro dia ela sequer me dirigiu uma palavra, afora os momentos de sexo e algumas outras vezes que eu ouvi ela falando com o professor da Melina são raros os dias que sequer escuto a sua voz. É normal, deve ser normal, puxa cinco, segura cinco e solta cinco.

Não existia outro modo de te explicar como é ler um livro do Kafka e eu espero ter despertado em você a curiosidade para pegar em um, é assim mesmo, a principio ele começa se atendo a detalhes que parecem vazios e aos poucos te enfia dentro de um pesadelo, sem ar, sem janelas e sem saber por onde andar.  Agora vai ali, deixa um comentário, discorde, critique e compartilha com alguém.dicas-de-como-poupar-para-o-casamento

foto: http://www.wefashiontrends.com/casamento/

Standard