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Pratos sujos

Nas mãos um lápis. Ao ouvir o seu nome ela se esticou com pressa e levantou o braço – presente – apenas isso.

Na rua a luz desce em um branco sujo, o reboco difuso e feito de manchas escuras relembra que tem mofo e o mofo de que está vivo. O mundo se torna composto por cantos sem sombras. A falta de sombras em dias frios passa a impressão de que elas estão na verdade dentro de você.

A água sai da torneira em mordidas, mesmo a porcelana parece gemer e se contorcer ao toque do detergente, a gordura, teimosa, escorrega pelo encanamento.

Existe fumaça lá fora, os latidos vêm acompanhados pelo apito do caminhão que manobra, são três homens ao todo, um dirige e dois correm, lançando os sacos de lixo no compartimento de trás.

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– Cuidado com a graxa – ela se lembrou de ouvir isso quando voltava para casa, na ocasião a irmã mais velha preveniu, muito mais por necessidade de parecer madura do que por impulso maternal. A pequena ficou esperando fora do bar enquanto a maior buscava a chave de casa.

Hoje é só o metal limpo e bem pintado. Talvez nem tenha graxa, talvez ele nunca tivesse e o aviso foi por pura besteira ou carinho, ela não saberia dizer.

É isso que ganha o nome de rotina, um dia comum seguido por outro dia comum que com a soma de todos eles, e são muitos, transformam a realidade completamente. Quem acredita que a rotina é um punhado de dias todos iguais deve ser uma pessoa de sorte.

Nas mãos uma bola, a rede de vôlei não faz muita diferença mesmo por que nenhum delas salta, ou sequer têm altura, para fazer um bloqueio, está lá por convenção da partida. A bola sobe de um lado para o outro, lenta, preguiçosa, para o alto, recebe e devolve; alta, suja, recebe e devolve. Em algum momento uma delas comete um erro, um deslize, pode ser uma tentativa de se antecipar ou um simples descuido com a postura e pronto, a bola toca no chão. Ponto para o outro lado.

E basta isso, as famílias seguem um apoio medido, cronometrado. Os comentários são ensaiados, os gritos de apoio estão em concordância, mesmo as reclamações e as briguinhas exaltadas entre elas leva em conta um acordo pré-estabelecido. No roteiro estão as linhas do chão, a rede, a bola, as meninas e a grade cinza.

Nãos mãos um prato sujo e a torneira aberta. O detergente deve ser guardado de cabeça para baixo para que ele possa descer até a tampinha e aguardar o momento de ser usado. O ralinho da pia fica sempre entupido com os restos de comida. Um dos momentos mais nojentos é justamente ter que retirar ele e jogar esses restos no lixo, algumas vezes, por puro capricho, ela deixa o caminho livre para a comida descer direto pelo cano – vai entupir – diria a mais velha, mas não entope.

Nas mãos uma prece, a vela está posicionada em frete ao túmulo, em dias frios o barro ganha vigor, se impõe e mancha a sola dos tênis e o caminho dentro de casa.

Foi dentro de casa que ela encontrou a irmã, foi no marrom do banquinho que ela reconheceu o problema e foi no sacudir das cordas que ela compreendeu o que era a rotina.

Essa é a rotina, um punhado de dias iguais que somados fazem com que a vida mude para sempre, não um dia só, não um banquinho, uma corda e um nó. É a soma e não o ato em si. É a soma.

Nos lábios uma palavra – sim – ela aceitou, ele sorriu, ela sorriu. Eles engravidaram… ela nasceu.

Nas palavras um pedido, queria poder ter feito algo.

 

 

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Discurso de ódio

Eram seis ao todo e eram seis da tarde, nenhum deles era especialmente grande ou forte e mesmo assim eles foram capazes de fazer muito estrago. O coturno do último afundou na lama, o cheiro de suor e fezes já incomodava a todos. Eles estavam cansados, evitaram paus e ferramentas porque tiraria toda a graça, seria muito mais heroico espancar o garoto até a morte. Sempre existiu um senso comum sobre o corpo evacuar após a morte e nenhum deles sabia se era verdade ou não, a julgar pelo cheiro é possível que seja mesmo verdade.

Eles encontraram o garoto durante à tarde, não havia um planejamento, nada premeditado, tudo foi de certa forma improvisado e agora ele está no chão. O rosto distorcido trai um crânio partido, eles haviam combinado que os chutes seriam primeiro na barriga e no peito, só depois seriam no rosto, mas na hora cada pé acertou onde podia e algum imbecil acabou pisando ao invés de chutar. Agora ele esta assim, um ovo de páscoa partido dentro do embrulho.

O mais irônico é que o comportamento de massa é resultado dos feromônios que são expelidos no ar e não da testosterona, é por isso que a polícia usa armas de gás lacrimogêneo como uma forma de conter a multidão.

 

Agora acabou; um deles tenta encontrar graça em mais um chute ou outro, está claro, não encontra. É como insistir em brincar com um carrinho sem rodinhas, tudo passou.

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Seis horas antes, Guilherme saiu para a rua e foi até a cafeteria, queria fazer algo assim, queria parecer uma personagem de série. Guilherme pediu o mais caro, pegou o bolinho mais fotogênico e procurou sentar em um canto, a forma como as mesas estavam dispostas não deram muito caso para a sua narrativa de seriado de todo modo ele encontrou um cantinho legal onde podia ver mais do que podia ser visto.

 

São quatro da tarde e as pernas de Guilherme estão tremendo, ele sabe que está para fazer algo grandioso. A timeline está sem graça hoje, quase nada de especial. Ele checou as próprias fotos, um garoto loiro e de olhos azuis mirava a câmera, alguns likes, algumas pretensas transas, ele estava lá e sabia o que ia acontecer. É isso mesmo, é isso mesmo por que não? Eu posso sim fazer isso, basta olhar para a minha foto, sim eu vou fazer isso.

 

São cinco da tarde, Guilherme deixa o quarto do Hotel rumo à manifestação, está levando um punhado de documentos; passaporte, carteira de motorista do país de origem, uma e outra papelada além do RG original, apesar do pai ser Americano Guilherme tem encontrado dificuldades em conseguir a dupla cidadania, não tem problema. Hoje ele vai fazer provar o valor do seu sangue através do grito.

 

Cinco e trinta da tarde, dois caras no meio da manifestação esbarram em Guilherme, eles vinham desconfiando que aquele garoto não era genuinamente americano, mesmo ele fazendo as saudações e gritando junto com todos os outros algo no sotaque entregou a origem; depois de alguns empurrões e algumas ofensas eles fizeram com que Guilherme pegasse o RG e os documentos.

 

São dez para às seis da tarde, seis homens arrastam o Brasileiro Guilherme de olhos azuis para dentro de um beco, longe da manifestação e afastado dos cinegrafistas…

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Sol

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Silvano deu o primeiro golpe de faca sem muita convicção, o cabo sujo de suor parecia mais áspero naquela manhã, tentou um segundo golpe com um pouco mais de firmeza, nada, a faca não estava conseguindo vencer as fibras e os nódulos, na terceira vez o golpe foi suficientemente forte porém desajeitado e a faca acabou presa no bambu da cana de açúcar. Silvano sabia que tinha de arrancar a  faca dali bem rápido, alguém poderia notar o embaraço e interpretar aquilo como moleza, daí a coisa poderia ficar realmente ruim,  o resultado poderia variar entre uma tarde sem almoço ou marcas de cigarro nas costas, tudo dependeria muito do espírito empreendedor do capataz naquele dia.

Estabelecer um castigo para moleza era a única vocação genuína do capataz, pessoa de pouca leitura, muito sol na cabeça e muitos filhos para criar, sabia que a moleza não curada se vira contra ele, quem não bate apanha então é melhor aprender a bater bem rápido e bem forte.

Silvano se lembrou de um assobio, coisa pequena, que a sua mãe cantava quando ela ainda era da cana, o menino fez um esforço para umedecer a boca e começou a puxadinha, assim como nos golpes de faca no inicio a melodia saia enroscada, tímida, meio troncha, mas depois com um pouco mais de paciência ele conseguiu engrenar uma sequência boa e dali pra frente o trabalho fluiria melhor.

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– Benza Pai.

A única panela da casa ia com o fundinho de arroz e um pouco de mandioca, Silvano ajeitou melhor a panela e pegou o irmão mais novo no colo. A distribuição dos aposentos não é muito complexa e faria qualquer arquiteto minimalista morrer de inveja branca, dois ambientes com no máximo dez itens ao todo. Um ambiente para as necessidades, outro com  duas cadeiras, uma mesinha de madeira  simples, um banquinho no canto com a foto da virgem e um terço, no canto oposto o fogão de duas bocas a gás (financiado pelo capataz) e cruzando a sala uma rede velha manchada de sangue.

Silvano foi até a fotinho da virgem e colocou a mão na testa.

– Benza mãe.

O pai de Silvano fez o melhor que pode para levantar da rede sem demonstrar fraqueza, o primeiro pé encostou no chão com firmeza mas o segundo já não tinha o mesmo vigor.

– Quando a faca pega lisa e certeira na cana é uma beleza, agora quando pega na perna da gente rapaz, é de ver o diabo – Silvano lembrou de ouvir o pai dizendo isso enquanto sorria para alguns amigos na volta do dia, pelo sorriso do pai o machucado não parecia tão grave, entre risadas e comentários todos eles se reuniram, lavaram com cachaça e a família de Silvano, pai, irmão e ele, ganharam um punhado extra de arroz naquele dia graças a um acordo fechado secretamente entre os trabalhadores – o menino, isso aqui é coisa pouca, rapidinho já fechou.

Silvano lembra do pai tentando trabalhar ainda mais uma semana com a perna escondida, o problema é que todo o sangue coagulado durante às poucas horas de sono acabam rachando e tornando a sangrar no dia seguinte, e é de péssimo tom para o capataz entregar uma saca inteira de cana suja de sangue.

É claro que o menino não sabe exatamente o que é coagulado, ele não tem esse conhecimento abstrato dos médicos sobre como um machucado funciona, tudo o que ele tem é um instinto adquirido durante o rachar do sol na cabeça, ele sabe, sem saber por que sabe, que se deixassem seu pai quietinho, comendo bem, bebendo água e deitadão na soleira bem varrida da casa grande  a perna ficaria boa, agora, enfurnado numa casa que cheira a mijo, comendo papa de arroz e espantando os mosquitos com um pedaço de camiseta aquilo não ia fechar nunca.

De todo modo era melhor ter ele ali, respirando, bebendo e mentindo uma risada, do que não poder ver mais.

– Eu tirei a sorte grande menino, vou trabalhar na sombra, longe do sol e quem sabe não consiga tirar você daí também – O sorriso da mãe nesse dia fez o peito de Silvano ficar estufado e as bochechas quentinhas, o menino não sabia direito que gosto tinha ser criança mas era como se a própria virgem estivesse falando pelos lábios da mãe – vai trabalhar na sobra é, a senhora é muito da folgada mesmo? – disse rindo e ela riu de volta.

Quando a sua mãe se enfiou para dentro do galpão nem ele e nem ela sabiam o que esperar dessa “promoção das boas”, como disse o capaz, desde aquele dia o menino voltava para casa cheio de esperança.

A primeira noite foi diferente, o fato da mãe não ter voltado na mesma hora que todos os trabalhadores tocou uma nota dissonante na casinha. É esse sentimento de incerteza que bate quando você não tem conhecimento de nada, não sabe onde está pisando e a única coisa que pode fazer é esperar.

E ai ela apareceu.

Cansada, calada, falava pouco, concentrava as suas atenções em varrer o chão e falar com a virgem. Silvano nunca teve coragem para conversar com ela e mesmo se tivesse não tinha nada na cabeça para saber o que dizer, bem cedo ele tinha que voltar para a faca e ela ia para o galpão.

Assim passou um mês.

Até que ela não voltou, não voltou tarde da noite, não voltou cedo no dia seguinte, ninguém a via ou sabia dela. O pai vendo que a situação exigia dele uma resposta mais decisiva tentava de tudo arrancar alguma informação do capataz, deste só conseguia os respingos de cachaça na fala e ordens de voltar ao trabalho.

– Você que é o Silvano, seu pai tá ai? – O homem vestido de padre apareceu, a batina puída, cara cansada, era notável que não estava habituado com o sol.

– Está sim senhor mas ele não pode atender não, a febre tá que não deixa.

– Quantos anos você tem, menino?

– Dizem que tenho 12.

– Já é homem já, menino?

– Sou sim senhor.

– Esse ali é seu irmão?

– Esse ali é meu irmão sim senhor.

Sem saber como continuar o assunto o padre resolveu acertar logo a sua conta com aquela situação,  a vida do menino era surrada do inicio ao fim, não tinha razão para tentar amaciar agora.

– Sua mãe morreu menino, enfiou o braço na máquina de esmagar cana. A prefeitura procurou por mais de quinze dias quem pudesse dar nome para a morta mas não acharam ninguém, deu que o capataz que conhecia ela me avisou da casa de vocês e aqui está. O endereço é esse aqui e o número da lápide é o que está aqui, sabe ler?

– Sei não senhor, meu pai se tivesse acordado também não ia saber não senhor.

Não dá para deixar a faca presa no bambu e Silvano sabe disso, conseguiu tirar ela com agilidade e voltar aos golpes, um, outro, a cana vai caindo e ele vai acertando o passo. A melodiazinha acompanha o dia de sol.

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PS: As fotogrfias em preto e branco são de autoria de David Arioch, todos os direitos reservados ao autor. 

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