Filmes, séries e livros

Você deve assistir “Até o último homem” e entender o que é um bom filme para todos os públicos

One more… Please give one more…

Existem duas leituras possíveis para este filme, você pode olhar para ele como uma produção ambiciosa dirigida pelo Mel Gibson, se o Mel Gibson precisa mesmo de apresentações aqui vai, ele estrelou Coração Valente (1995) e dirigiu o polêmico A paixão de Cristo (2004), agora, é possível assistir “Até o último homem” como uma história bem contada e se emocionar com o fato do filme ser baseado em fatos reais e com um final muito satisfatório.

Andrew Garfield estava fora do radar de todo cinéfilo quando interpretou o Homem Aranha, contudo, após atuar como Padre Rodrigues no maravilhoso Silêncio dirigido pelo Scorsese  fica impossível não levar este ator a sério, afinal, o Scorsese não daria o papel principal de um dos seus filmes mais queridos se este ator não fosse muito capaz.

Assim como foi no filme do Scorsese aqui Andrew incorpora o papel de um homem religioso, diferente da outra vez neste ele que se alista no exército para atuar como médico, a principio o roteiro não apresenta nenhuma novidade mas quando você descobre que esse homem se nega a pegar em armas e que tudo é baseado em fatos reais o filme ganha um tom novo.

Gibson abre o filme com uma cena de batalha que não peca em nenhum momento,

Com a mesma competência que ele mostrou em A Paixão de Cristo, o diretor repete a paciência e a persistência em mostrar os horrores da violência de perto, existem muitas feridas abertas nas cenas de batalha e não pense que você verá apenas fumaça e aquela cacofonia habitual dos filmes menos compromissados.

Gibson pretende demonstrar a violência e faz isso com cenas bem ensaiadas de dor e muitos corpos expostos, quando uma bomba explodir perto de um soldado ele não vira uma nuvem de fumaça, ele vira entranhas e pernas voando, nada que se pareça ao estilo gore ou sangue apenas pelo prazer do sangue, Mel tem uma mensagem, uma guerra faz feridos e os feridos são assim, para os de estomago mais sensível Mel não mantém a violência por muito tempo e mesmo a sua crueza é moderada.

Após a cena inicial Mel Gibson segura o ritmo do filme para apresentar Desmond T. Doss (interpretado na infância por Darcy Bryce e adulto por Andrew Garfield), uma criança formada em um lar desfeito, filho de um ex combatente da primeira guerra mundial e uma dona de casa, Desmond e o irmão são criados neste lar habituados a constante violência do pai, Hugo Weaving, que atuou no filme O Hobbit e Capitão América faz um papel muito sólido aqui, o trabalho de voz e dos gestos é muito convincente.

O primeiro ato funciona como um filme de romance despretensioso, Desmond conhece a enfermeira Dorothy Schutte (Teresa Palmer) e a aproximação do casal se dá de forma natural, o contra ponto deste ato é a violência assombrando Desmond, como pano de fundo para o casal existe a ameaça da guerra, é importante frisar que os recursos de narrativa utilizados neste primeiro ato são muito interessantes e a constante presença da guerra é bem utilizada, seja por uma cicatriz na pele de um veterano ou cenas de violência implícita em casa. É gostoso assistir a um filme que não fica te explicando a todo momento o que está acontecendo e te permite interpretar as cenas.

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A partir do segundo ato a percepção de Desmond a respeito da sua realidade muda completamente, é possível enxergar o arco da personagem caminhando para um visão mais madura mas nem por isso menos idealista, em alguns momentos você pode incorrer no erro de acreditar que toda a fibra de Desmond está enraizada unicamente na teimosia, afinal, como um soldado iria para a guerra se recusando a sequer tocar em uma arma? De todo modo, com o desenvolver das cenas fica claro de onde ele tira seu vigor e todo o desenvolver do filme ganha cores novas, ao perceber que Desmond não se trata de um pacifista, ele é um soldado, um soldado que se nega a matar.

No quartel somos apresentados a diversos outras personagens, existe clássico sargento escandaloso que exige respeito, disciplina e molda seus soldados como ferro quente, na base da marretada. Existem os amigos e os desafetos, Gibson foi confiante o bastante para não tentar reinventar a roda aqui.

Como acontecia nas cenas românticas, Mel Gibson não tentou fazer um filme autocongratulatório ou prepotente, as cenas do Quartel e todos os problemas envolvendo essa parte do filme são tratadas de modo claro, com pouca exposição e sem aqueles roteiros truncados, cheios de filosofias e dificuldades, tudo acontece de maneira simples para entender e é possível acompanhar o estado de espirito de todas as personagens já na superfície.

Com o desenvolver do roteiro o público é convidado a refletir sobre quem são os antagonistas da história e é isso que faz deste filme tão prazeroso e torna a sua história acessível para todos, para os que adoram filmes de guerra terão suas cenas de heroísmo, para quem gosta de filmes românticos vão encontrar cenas confortáveis como tomar chá vendo série e para quem gosta de História, aquela com H e feitos intrigantes, vai encontrar uma boa prosa.

A cena final é puro Mel Gibson, mais ambiciosa e explicita essa cena acabou transformando o soldado Desmond em algo além do que ele já era, para mim é uma cena que sobra e eu teria cortado ela fora do filme, teria cortado pois os feitos do personagem no decorrer da história já são o bastante para torna-lo especial, não havia nenhuma necessidade de uma redenção final, de todo modo, ainda assim não diminui o valor do filme. Após a última cena são mostrados relatos das pessoas reais e essa última parte é muito divertida e é um ótimo modo para encerrar o relato.

Até o último homem é um filme sobre a segunda guerra mundial que se destaca do grande mar de filmes com o mesmo tema, é um bom filme sem ser cabeçudo e é acessível sem cair no besteirol. Vale a pena assistir, para os que já viram e concordam ou discordam deixem o seu comentário, seja aqui ou na publicação onde viram este link. Obrigado.

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Filmes, séries e livros

Get Out (Corra!)

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Get out é um filme de terror lançado em 2017,  o filme foi escrito e dirigido por Jordan Peele (diretor que antes desta produção trabalhava com comédia) no filme também participam os atores Daniel Kaluuya e a atrizes Alison Willians e Catherine Keener. Kaluuya é muito conhecido do público Brasileiro pelo episódio estrelado por ele de Black Mirror e a atriz  Catherine Kenner tem participações em diversos outros filmes conhecidos entre eles Into the Wild (Na Natureza Selvagem – Dirigido pelo Sean Penn).

Get out conta a história de um casal de namorados que resolve visitar os pais da moça em uma pequena cidade do interior Americano, uma premissa  bem simples que só funciona por que a primeira cena do filme é muito bem dirigida e abre com muito suspense, além de prometer cenas mais intensas.

Embora o filme seja bem dirigido e a fotografia não prejudique em nada as cenas, o primeiro ato é repetitivo e até clichezendo, as poucas cenas que se destacam da fórmula “namorado inseguro com medo dos pais da namorada” acabam sendo os poucos momentos de tensão que não sustentam com eficienta toda a exposição que o diretor deixou para este inicio.

De todo modo existe um plano sequência muito interessante que é no momento em que Chris (o mocinho) é apresentado aos pais da mocinha, aqui o diretor posiciona a câmera em visões distantes e planos simétricos causando um estranho senso de ordem que destoa com o diálogo do Pai, a cena se desenvolve com pequenas doses de desconforto quem funcionam muito bem para devolver a nós o interesse pelo filme, honestamente quase perdidos com as primeiras cenas.

É preciso dizer que o roteiro está sustentado pela relação entre público e protagonista, onde quando um não sabe de alguma coisa o outro também não sabe, isso é uma linguagem quase padrão em filmes de terror/suspense e aqui não prejudica as cenas, contudo,  após a apresentação das personagens principais o clima do filme acaba ficando monótono.

Chris é apresentado a todo momento para situações confusas e inquietantes mas que acabam não funcionando como deveriam, em algumas cenas eu honestamente fiquei mais irritado com o ritmo lendo e indeciso da cena do que nervoso com o que poderia acontecer com a personagem principal.

Embora o mocinho seja carismático e o trabalho do ator tenha sido muito bem feito, principalmente as expressões, o cara é uma máquina de criar caras e bocas, os problemas apresentados na maioria das situações não me prenderam, em uma cena específica na festa onde Cris resolve tirar uma foto de outra personagem o filme acaba entregando um spoiler de si mesmo que não ficou nada bom além de estabelecer uma alternativa muito pouco criativa.

Filmes de terror são problemáticos, é preciso colocar o público em sintonia com o que acontece na tela de modo que pedra fundamental para todo filme de terror é que o espectador acredite no que está acontecendo, isso é primordial, o público deve acreditar no que está acontecendo, infelizmente em Get out toda a trama é sustentada sobre uma premissa que se torna mais ridícula com o desenvolver do filme.

Para piorar, as cenas de suspense são entrecortadas por cenas de alivio cômico francamente saídas de programas de sketch (local onde o Diretor tem maior segurança). Você acaba dando risada, o ritmo se quebra e o filme volta a estaca zero no quesito “manter o público na ponta da cadeira de nervosismo”.

No último ato, quando todo o clima já está estabelecido e nós já sabemos quem, que, o que, quando, como e o por que de toda a trama, o filme acaba caindo em uma exposição absolutamente contra clímax, é exatamente isso o que acontece, a personagem é sentada em uma cadeira e na frente dela uma televisão mostra passo-a-passo do que foi feito, por que está sendo feito, como será feito, quando será feito e por quem está sendo feito. É como aqueles desenhos antigos em que o vilão prende o herói e antes de desintegrar a cabeça dele com um raio laser resolve, a título de autopromoção, contar o seu plano secreto. Ruim, não funciona, neste momento foi quando eu disse – ok, é isso, que filme ruim – mas aí, para a minha surpresa, foi quando o filme ficou legal.

Nas cenas finais o filme deixa de se levar tão a sério e cai na escatologia de filmes de terror, você vai ver muito xarope de groselha fazendo o papel de sangue aqui, além disso, uma solução final dada pelo mocinho para poder vencer o vilão que ia desintegra-lo com o raio laser me fez dizer – É, ISSO AÊ, PORRA, TOMA ESSA SEU BOSTA, VAI PRA CIMA DELES.

Get out é um filme de terror que salvo algumas cenas não aterroriza, contudo, nem tudo são defeitos; O humor crítico contra o racismo é muito inteligente e nada clichê, a trilha sonora foi bem utilizada, a fotografia é competente e os planos sequência são muito bem programados, o lado negativo é que se você está esperando ver um filme de terror que te faça suar vai se decepcionar muito, este filme possuí cenas manjadas como “o cientista maluco no seu laboratório”, “a vilã que ostenta os troféus de vitimas antigas pregadas na parede enquanto procura uma vítima nova”, “o irmão mais novo problemático, junkie que procura ter um olhar perturbador” enfim, é um pacote completo de clichês.

Agora se você só quer ver um filminho bacana, com boas sacadas, bem dirigido e não se importar muito com o final, este é um ótimo filme para passar o tempo.

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Cotidiano

5 motivos para pesquisar um novo autor ou autora na FLIP

image Não sei se vocês sabem mas a FLIP (Festa Literária de Paraty) está acontecendo.

Local que concentra diversos pensadores e escritores contemporâneos, a FLIP deste ano está especial , os organizadores resolveram dar um espaço mais igualitário para as autoras, também para os autores de outras etnias ou lugares que normalmente ficam fora do circuito comum das publicações, por este motivo a minha publicação de hoje será muito mais modesta e simples, eu vou me propor a dar 5 motivos para você ler mais, não apenas isso, por que aí você pega aquela coleção de Harry Potter e pronto, não, não, 5 motivos para você ler mais livros de mulheres, ou africanos, ou autores (e autoras) latino americanos, enfim, 5 motivos para você tentar abrir o seu olhar literário.

Não vou começar com aquelas ladainhas de “ah, vai deixar seu vocabulário mais pomposo” etc, etc. Os motivos óbvios você já sabe, ler vai ter tornar uma pessoa melhor, óbvio mas e então quais seriam outros motivos, mais mundanos, mais pé no chão, quais motivos mais roots mesmo para pegar um livro hoje? Vem cá, só um aviso, como nenhuma destas dicas é comprovada e todas elas partem de um pressuposto adotado por mim, vou iniciar todas elas com “é provável…”,  assim ninguém poderá me acusar de falar besteira.

 

  • É provável que você vá ganhar um salário melhor

Você pode até achar que é pura bravata minha mas é verdade, lendo bastante é provável que você desenvolva diversas outras habilidades importantes como o discurso claro (e coerente), agora, lendo sobre outras culturas ou outros pontos de vista (e o legal seria até pontos de vista que você discorda) o seu repertório ficará muito mais abrangente e vai melhorar até a sua capacidade de analisar melhor as situações, sério, pelo simples motivo de você estar combatendo seus preconceitos e dando a oportunidade de conhecer outras culturas. Todas estas características são importantes para conseguir um carguinho melhor no que você quiser fazer. Se você dúvida joga no google, certeza que existe algum estudo de algum lugar que corrobora essa minha dica

 

  • É provável que você se preocupe menos com coisas estúpidas

Hoje é fácil dar uma ênfase muito grande para coisas sem tanta importância, sabe, passar o dia vendo dicas de pessoas que honestamente não são tão melhores assim que você, tudo bem ver uma ou outra coisa mas dedicar uma vida? Está louco, Gabriel Garcia Marquez foi um Colombiano muito legal e deixou várias coisas escritas muito mais úteis do que as dicas daquele vlogueiro famoso, e no fim o Gabriel nem pede para você se inscrever em nada, usa ele como exemplo e dê a oportunidade para uma Colombiana contemporânea.

 

  • É provável que você fique imune a essa doença de acreditar que a terra é plana

O mesmo vale para todas as outras anti-teorias modernas como  o aquecimento global não existe, dona fulana de tal está viva na Itália, etc. Sério mesmo, é quase como um reflexo da dica número 1, ao ler você afia o seu senso crítico e começa a perceber como esses absurdos são ridículos. E não pense você que isso é fácil, acho que todos nós de algum modo acreditamos que a terra é plana em algum assunto, sendo assim nada como tentar expandir nossa cabecinha para evitar esse tipo de acidente.

 

  • É provável que a sua vida fique muito mais interessante

Não tem nada mais legal do que pegar um livro fora do contexto e encontrar nele alguma história bacana. Um tempo atrás eu peguei um livro chamado Paraíso&Inferno do escritor Islandês Jón K. Stefansson e foi uma das melhores coisas que eu já li, é ótimo e é tão legal observar que eu, no Brasil, me identifico com as personagens de um país tão distante geográfica e culturalmente. Tudo bem que você pode dizer, “ah, Islandês né seu hipocritazinho de mer… e você mandando nós lermos latinos”  mas em minha defesa eu preciso dizer que já li muito Vargas Llosa e Isabel Alende, então tenho um pequeno crédito.

 

  • É provável que você perceba como o a sua cultura é rica

Eu disse na dica 4 que você ficaria fascinado em se identificar com pessoas de culturas distantes e isso é verdade mas também é verdade o fato de você notar como a sua própria cultura é rica e como o seu modo de fazer certas coisas são instigantes, é bacana reconhecer que no meio desse mundo enorme existe algo que te caracteriza como singular. Ao testemunhar (mesmo através dos livros) a forma como outros povos agem em determinadas circunstâncias você vai dar mais valor para aquele seu modo particular de ser e até para as liberdades que existem no seu país que você nem tomava como vantagens, dúvida? Experimenta ler alguma coisa sobre o modo de vida da Coréia do Norte (inclusive existe um vencedor de Pulitzer sobre esse assunto, não vou falar quem é, joga no google ) (mentira, vou sim, o livro se chama Jun Do e é do escritor Adam Johnson, vale demais a leitura), depois de ler sobe a Coréia do Norte, o Camboja, etc, o Brasil parece um paraíso na terra.

 

Uma sexta de bônus, nem vou abrir um item só para ela, livros são muito mais baratos do que passagens, além disso, com os livros você pode entrar em territórios que seriam bem perigosos para ir pessoalmente. Tá aí, se nada disso te incentivar a ler mais e você quiser ficar no seu Harry Potter mesmo, tudo bem, Harry Potter é uma coleção muito bacana de livros, só me faça um favor, não fique discutindo que a terra é plana nem compre livros “escritos” por Youtubers.

 

Já falei que você para de acreditar que as mudanças climáticas são mentira? Sabe assim, por que não são… Só para deixar aqui né, como, enfim… Não são, ok?!

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Sol

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Silvano deu o primeiro golpe de faca sem muita convicção, o cabo sujo de suor parecia mais áspero naquela manhã, tentou um segundo golpe com um pouco mais de firmeza, nada, a faca não estava conseguindo vencer as fibras e os nódulos, na terceira vez o golpe foi suficientemente forte porém desajeitado e a faca acabou presa no bambu da cana de açúcar. Silvano sabia que tinha de arrancar a  faca dali bem rápido, alguém poderia notar o embaraço e interpretar aquilo como moleza, daí a coisa poderia ficar realmente ruim,  o resultado poderia variar entre uma tarde sem almoço ou marcas de cigarro nas costas, tudo dependeria muito do espírito empreendedor do capataz naquele dia.

Estabelecer um castigo para moleza era a única vocação genuína do capataz, pessoa de pouca leitura, muito sol na cabeça e muitos filhos para criar, sabia que a moleza não curada se vira contra ele, quem não bate apanha então é melhor aprender a bater bem rápido e bem forte.

Silvano se lembrou de um assobio, coisa pequena, que a sua mãe cantava quando ela ainda era da cana, o menino fez um esforço para umedecer a boca e começou a puxadinha, assim como nos golpes de faca no inicio a melodia saia enroscada, tímida, meio troncha, mas depois com um pouco mais de paciência ele conseguiu engrenar uma sequência boa e dali pra frente o trabalho fluiria melhor.

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– Benza Pai.

A única panela da casa ia com o fundinho de arroz e um pouco de mandioca, Silvano ajeitou melhor a panela e pegou o irmão mais novo no colo. A distribuição dos aposentos não é muito complexa e faria qualquer arquiteto minimalista morrer de inveja branca, dois ambientes com no máximo dez itens ao todo. Um ambiente para as necessidades, outro com  duas cadeiras, uma mesinha de madeira  simples, um banquinho no canto com a foto da virgem e um terço, no canto oposto o fogão de duas bocas a gás (financiado pelo capataz) e cruzando a sala uma rede velha manchada de sangue.

Silvano foi até a fotinho da virgem e colocou a mão na testa.

– Benza mãe.

O pai de Silvano fez o melhor que pode para levantar da rede sem demonstrar fraqueza, o primeiro pé encostou no chão com firmeza mas o segundo já não tinha o mesmo vigor.

– Quando a faca pega lisa e certeira na cana é uma beleza, agora quando pega na perna da gente rapaz, é de ver o diabo – Silvano lembrou de ouvir o pai dizendo isso enquanto sorria para alguns amigos na volta do dia, pelo sorriso do pai o machucado não parecia tão grave, entre risadas e comentários todos eles se reuniram, lavaram com cachaça e a família de Silvano, pai, irmão e ele, ganharam um punhado extra de arroz naquele dia graças a um acordo fechado secretamente entre os trabalhadores – o menino, isso aqui é coisa pouca, rapidinho já fechou.

Silvano lembra do pai tentando trabalhar ainda mais uma semana com a perna escondida, o problema é que todo o sangue coagulado durante às poucas horas de sono acabam rachando e tornando a sangrar no dia seguinte, e é de péssimo tom para o capataz entregar uma saca inteira de cana suja de sangue.

É claro que o menino não sabe exatamente o que é coagulado, ele não tem esse conhecimento abstrato dos médicos sobre como um machucado funciona, tudo o que ele tem é um instinto adquirido durante o rachar do sol na cabeça, ele sabe, sem saber por que sabe, que se deixassem seu pai quietinho, comendo bem, bebendo água e deitadão na soleira bem varrida da casa grande  a perna ficaria boa, agora, enfurnado numa casa que cheira a mijo, comendo papa de arroz e espantando os mosquitos com um pedaço de camiseta aquilo não ia fechar nunca.

De todo modo era melhor ter ele ali, respirando, bebendo e mentindo uma risada, do que não poder ver mais.

– Eu tirei a sorte grande menino, vou trabalhar na sombra, longe do sol e quem sabe não consiga tirar você daí também – O sorriso da mãe nesse dia fez o peito de Silvano ficar estufado e as bochechas quentinhas, o menino não sabia direito que gosto tinha ser criança mas era como se a própria virgem estivesse falando pelos lábios da mãe – vai trabalhar na sobra é, a senhora é muito da folgada mesmo? – disse rindo e ela riu de volta.

Quando a sua mãe se enfiou para dentro do galpão nem ele e nem ela sabiam o que esperar dessa “promoção das boas”, como disse o capaz, desde aquele dia o menino voltava para casa cheio de esperança.

A primeira noite foi diferente, o fato da mãe não ter voltado na mesma hora que todos os trabalhadores tocou uma nota dissonante na casinha. É esse sentimento de incerteza que bate quando você não tem conhecimento de nada, não sabe onde está pisando e a única coisa que pode fazer é esperar.

E ai ela apareceu.

Cansada, calada, falava pouco, concentrava as suas atenções em varrer o chão e falar com a virgem. Silvano nunca teve coragem para conversar com ela e mesmo se tivesse não tinha nada na cabeça para saber o que dizer, bem cedo ele tinha que voltar para a faca e ela ia para o galpão.

Assim passou um mês.

Até que ela não voltou, não voltou tarde da noite, não voltou cedo no dia seguinte, ninguém a via ou sabia dela. O pai vendo que a situação exigia dele uma resposta mais decisiva tentava de tudo arrancar alguma informação do capataz, deste só conseguia os respingos de cachaça na fala e ordens de voltar ao trabalho.

– Você que é o Silvano, seu pai tá ai? – O homem vestido de padre apareceu, a batina puída, cara cansada, era notável que não estava habituado com o sol.

– Está sim senhor mas ele não pode atender não, a febre tá que não deixa.

– Quantos anos você tem, menino?

– Dizem que tenho 12.

– Já é homem já, menino?

– Sou sim senhor.

– Esse ali é seu irmão?

– Esse ali é meu irmão sim senhor.

Sem saber como continuar o assunto o padre resolveu acertar logo a sua conta com aquela situação,  a vida do menino era surrada do inicio ao fim, não tinha razão para tentar amaciar agora.

– Sua mãe morreu menino, enfiou o braço na máquina de esmagar cana. A prefeitura procurou por mais de quinze dias quem pudesse dar nome para a morta mas não acharam ninguém, deu que o capataz que conhecia ela me avisou da casa de vocês e aqui está. O endereço é esse aqui e o número da lápide é o que está aqui, sabe ler?

– Sei não senhor, meu pai se tivesse acordado também não ia saber não senhor.

Não dá para deixar a faca presa no bambu e Silvano sabe disso, conseguiu tirar ela com agilidade e voltar aos golpes, um, outro, a cana vai caindo e ele vai acertando o passo. A melodiazinha acompanha o dia de sol.

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PS: As fotogrfias em preto e branco são de autoria de David Arioch, todos os direitos reservados ao autor. 

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Contos

Plástico

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Ela tentou se limpar mas o seu sexo inchado e arroxeado ardeu com o contato áspero do papel higiênico, estava vermelho, a pele ensebada tinha um aspecto de molusco. Mesmo assim ela esfregou uma, duas, sete, dezenas de vezes, parecia que nada conseguia tirar aquele sebo. Isso ela podia suportar, podia suportar a torção no estomago que aparece assim que tudo termina, podia suportar o cheiro de suor, podia suportar a fome.

Não dava para suportar olhar para ele, ela sabia que assim que saísse do banheiro ele estaria lá, talvez fumando, talvez tentando desesperadamente sensualizar – na próxima eu vou correr direto para o corredor e limpar a minha buceta no chão de carpete – saiu do banheiro.

Ela o viu encostado na cama, ele fumava. Fumava apesar da única janela do quarto estar selada e a porta fechada, fumava como se aquele cigarro fosse dar alguma resposta que os momentos anteriores não foram capazes de dar. Agora ela o via, claro que via.

O quarto possui um espelho no teto, um nas costas e um na parede lateral, todo o redor é composto por espelhos.  Ao lado da cama estão posicionados dois criados mudos sem gavetas que na prática servem apenas como aparadores para cinzeiros, maços de cigarro e latinhas de cerveja. Na parede da porta tem um interfone bege envelhecido sem teclas, basta tira-lo do gancho e uma luzinha acende no painel da recepção. Não existe nenhum passador de objetos pela porta então quem quiser pedir algo será obrigado a abrir a porta quando a coisa chegar.

As pernas estavam cansadas e o estomago tremia, era difícil segurar o olhar por muito tempo e agora estava ainda mais difícil devido a fumaça. Ela ensaiou dizer algo, o que poderia ser – então está bem, fodemos, eu vou embora – abriu a boca… a mancha de saliva na base do cigarro quase fez ela vomitar, segurou o refluxo. Com o olhar ela encontrou a calcinha e a calça jeans.

Ele tem 30 anos a mais que ela, vestido com uma camisa de pano brilhoso, o caimento da pele e dos panos tornam toda a cena deprimente. Não dá para saber se ele entende o que está acontecendo, o sorriso apalermado e as chupadas nojentas no cigarro fazem com que fique impossível analisar o perfil dele com alguma precisão.

Sem muita cerimônia ela começa a se vestir, colocou a calcinha, subiu sem que nenhum movimento pudesse nem remotamente sexual, precisou da ajuda da cama para se apoiar ao começar a subir as calças. Ele tirou o lençol das pernas e expos o membro.

Estava flácido e anêmico, a pele enrugada fazia par com a camisa e o papo do dono. Um novo refluxo veio mais forte e ela temeu não conseguir segura-lo, a frase seguinte apareceu coberta por saliva, fumaça e hálito de cerveja barata – eu ainda tenho 10 minutos.

O que esse imbecil pensa que pode fazer com mais dez minutos? Na verdade o que um traste destes conseguiria fazer com mais cinquenta e cinco malditos anos? A torção no estomago atinge um nível tal que cada interação é uma batalha isolada, olhar para ele exige um esforço de nível mediano, manter uma conversa de três palavras exigiria uma dedicação especial, voltar a tocar naquela pele nojenta é algo que está além das suas capacidades.

– Eu vou embora, na próxima você ganha mais dez.

Apesar dos vinte anos não é a sua primeira vez, ela já fez isso antes, ela tem feito isso quase que diariamente desde os dezoito anos de idade, basta fazer um agrado diferente, enviar uma mensagem mais doce, um olhar novo, basta fazer com que ele se sinta especial, ah, especial e pronto, nada de muito importante vai acontecer. Só precisa comer, só quer comer alguma coisa longe daqui.

O papo solto da pele tinha aspecto de flanela, a forma como o ar passava pela garganta fazia o pomo subir e descer em um ritmo adoentado, a voz é pigarreada, marcada pelos anos de cigarro – você vai ficar por mais dez minutos.

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Foi simples entrar, bastou fazer um cadastro no site e enviar algumas fotos. Após alguns dias os organizadores a chamaram para uma entrevista e uma transa teste, com tudo feito eles providenciaram uma sessão de fotos mais profissionais e pronto, ela já fazia parte do cardápio. Embora os organizadores cobrem 25% de tudo o que entra é um modo preferível do que ficar na rua esticando o braço – eu não vou ficar parada em esquina igual puta.

Ela sabia que tinha que ir, apenas por que ele é um dos mais frequentes usuários do site e uma reclamação poderia colocar por terra tudo o que ela passou os últimos dois anos construindo.

– Eu posso te enviar algumas fotos especiais, tenho fotos novas que não estão no site nem em lugar nenhum, mando elas direto para você e na próxima te dou um tratinho especial, papai, você gosta da sua filinha, papai?

O vomito que caiu no carpete do corredor se misturou naturalmente com as manchas antigas de pisada molhada e os anos sem limpeza.

 

 

Ela terminou o Whopper, bebeu o refrigerante até o fim e saiu às pressas.

O banco do passageiro cheirava  doce, talvez algo com amêndoas e o espelho do para sol ainda estava abaixado, ela sabia que ele havia acabado de deixar a esposa no trabalho.

– Desculpe a demora, eu tive um contratempo de manhã – disse sem muito entusiasmo.

Ela fungou uma, duas, uma dúzia de vezes, este, aparentemente, não fumava.

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Cotidiano

Mais reflexões sobre suicídio

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Quando temos uma gripe muito forte nós queremos uma caminha, sossego, carinho das pessoas próximas que amamos, queremos uma sopinha de algo gostoso e se possível que nossos chefes sejam engolidos pela terra, ah, se der para ter um episódio legal de alguma série bacana também caí bem.

Todo mundo aqui sabe como é estar gripado, o nariz fica uma merda, a voz começa a se transformar em algo saído de um filme de terror ou um squick irritantezinho na medida certa para te fazer soar patético;  na gripe o nosso corpo é atingido pelo lendário caminhão e tudo o que queremos, tudo mesmo, é não ter que ir trabalhar. Olha como é fácil falar de gripe, é bem tranquilinho…

Falar sobre suicídio não precisa ser um passeio a um parque abandonado, onde as atrações estão todas empoeiradas e a barraca de algodão doce descolorida e cheia de ratos.

É claro que o tema será desconfortável e é para ser desconfortável, é desconfortável por que quando falamos sobre o suicídio temos de aceitar a premissa de que é possível perder o controle sobre si mesmo.

Em algum momento da maturidade é preciso aceitar o fato de que não temos o controle sobre nossas vidas, a simples aleatoriedade dos acontecimentos garantem que você tenha um controle muito efêmero sobre o resultado da grande maioria das coisas, mesmo que muitos livros de autoajuda te digam para repetir em frente ao espelho “minha vida é um navio e eu sou seu capitão”.

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É preciso descolar o aspecto do suicídio com as nossas expectativas de felicidade, isso pelo motivo evidente de que a régua da felicidade de cada um é diferente e seria um erro absurdo incutir no outro a sua esperança para a vida. Sendo assim não é nada inteligente ao debater um tema como depressão e suicídio usar máximas do tipo “dinheiro não traz felicidade”, “nossa e tinha tudo”. É obvio que para um suicida algo muito particular estava faltando, o simples ato trágico máximo do suicídio pode servir como a tentativa derradeira de descobrir o que é isso.

Angústia é algo que todos nós sentimos, em doses grandes ou menores todos nós sabemos como é o sentimento atemporal de forçosamente viver o futuro sem ter tempo de lidar com o presente, a angustia age como um descompasso infernal que te azucrina dia e noite sobre algo que pode demorar para acontecer, que até talvez jamais aconteça. Esse é um sentimento básico mas e quando a angústia se torna doença?

Devemos fazer um esforço especial para observar que a depressão é um fenômeno físico tanto quanto psicológico, já que trata dos níveis de Serotonina entre outros fatores biológicos, não é atoa que muitos pacientes apresentam uma melhora enorme com remédios que atuam diretamente na inibição de agentes químicos responsáveis pela sensação de diversos “estados de espírito”. A depressão é uma doença catalogada e real, tentar anular ela com “pensamentos positivos” e fotografias em eventos sociais é uma forma de negação extremamente prejudicial.

Não podemos incorrer no erro de acreditarmos que somos todos capitães, que nossas vidas são navios e aqueles que encontram uma rocha no caminho o fizeram por incapacidade.  Ao ouvir algumas pessoas discutirem sobre depressão e suicídio é possível supor que tudo estava na mão do deprimido e o fato dele ter conseguido ou não “vencer” a depressão é somente um atestado de incapacidade.

Se eu te pedir para fazer uma lista honesta de todas as coisas que deram certo na sua vida e são obra sua de cabo a rabo que tipo de lista você teria?

O que estou dizendo é que depois de descobrirmos a fragilidade de tudo o que nós temos como tão certo e sólido, nós, talvez, tenhamos a capacidade de desenvolver uma alguma, qualquer uma, empatia genuína por aqueles que sofrem ou sentem dores diferentes das nossas. É preciso perceber que o mundo não age de forma ordenada e que nada parece fazer sentido todo o tempo, mesmo o mais detalhado dos planos tem chance de falhar. Muitos dos nossos planos já falharam e outros ainda irão falhar, então por que quando nos deparamos com uma pessoa desesperada, deprimida ou um suicida a nossa primeira resposta para isso é entrar na defensiva e apontar o dedo acusando de fraco, débil ou incapaz?

Nos outros textos que postei sempre bato a tecla para o autoconhecimento e neste adendo pretendo mais uma vez acudir para esse ponto, até quando vamos fechar a porta para o que existe de feio em nós? Compartilhar apenas o belo pode trazer consequências desagradáveis, no fim, de tanto Instagram estamos nos tornando uma geração de imaturos que não conseguem sofrer e não têm paciência com quem sofre, e isso, isso não pode ser saudável.

Se o suicida é alguém famoso a relação com o incidente fica complicada, o que antes era pura falta de empatia passa a se tornar antipatia, do outro lado é possível encontrar uma devoção desenfreada e assim perde-se a conexão com o tema mais importante, o suicídio.

É claro que os fãs devem sofrer as suas dores e fazer o melhor para absorver essa perda de um ídolo e os impactos que isso pode acarretar, contudo, entre o não ligar e o ligar demais ninguém acaba falando sobre o fenômeno em si.  Vou tentar deixar mais claro, imagine que um famoso perde o controle do carro, acerta um muro e morre, de um lado ficam as pessoas que não davam a mínima para o famoso – esse ai morreu por que não sabe nem virar um volante – do outro lado as pessoas frenéticas e fanáticas pelo dito – minha nossa, sem ele nada mais fará sentido  – notaram? Ninguém está discutindo sobre a segurança da estrada, sobre como sinalizar melhor essa curva ou quem sabe colocar uma lombada pouco antes dela para evitar que outros venham a toda velocidade e morram também.

Chester Bennington, Chris Cornell e muitos outros ídolos morreram vítimas do suícidio, assim como diversos anônimos insubistituíveis. E é preciso falar de vida mais do que falar de morte, é preciso entender como viver, viver de verdade e não essa vida fakeada, para não deixar que mortes assim tenham sido disperdiçadas.

O debate é extenso, difícil e desgastante mas se queremos entender e evoluir como sociedade é necessário separar um tempo para conversar sobre isso também.

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Cotidiano

Chester Bennington comete suicídio e manda um aviso para os nossos ídolos

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Ídolos são personagens que alimentamos no nosso imaginário de forma a dar coesão para as nossas narrativas particulares

São aqueles exemplos externos, em muitos casos distantes, que nos emprestam suas vidas, nós, no conforto da nossa pele, podemos projetar através dos nossos ídolos todas as nossas frustrações. Já foi moda manter ídolos com vidas errantes, desde os Sex Pistols, passando por Ramones, Metallica e toda sorte de roqueiros serviam como exemplo para jovens frustrados e colar um pôster do ídolo na parede do quarto, esperar a música tocar no rádio para gravar e discutir/dividir musicas novas com os amigos eram a forma de escape de muitas gerações, inclusive foi como eu aprendi a compartilhar sentimentos e dividir angústias no inicio da adolescência.

A moda dos badboys ficou esquecida, os ídolos hoje não possuem mais um estereótipo específico, a pulverização causada pela internet dissolveu diversas tribos, outrora mais coesas, em mini grupos, quem antes eram apenas os metaleiros, hoje exigem que sejam chamados de os metaleiros, veganos, agnósticos, canhotos de direita.

Cada cidadão hoje possuí uma coleção muito bem cuidada de ídolos e as idades destes personagens são diversas, até a formação ou a importância desse ídolo é confusa. Se antes você admirava certo ator pela performance ou certo baterista pela agilidade, hoje, adolescentes absolutamente vazios são admirados apenas por serem muito admirados, e você segue eles apenas por que eles têm muitos seguidores. Discursos vazios, roteiros manjados, piadas cretinas.

 

Um mundo de roteiros  desonestos e sem plotwist . O que está posto é o que eles têm de melhor, aquele youtuber não vai tirar um coelho da cartola, o mesmo discurso de hoje é o de amanhã e a mesma opinião de hoje será a de amanhã, o raso tornou-se a regra e a regra é não se aprofundar.

É muito difícil encontrar a produção de conteúdo genuína e engajada, seja no que for, nosso engajamento está mais para obsessão pura e simples e o que já foi o desejo de conexão com outra pessoa, como emprestar um kassete gravado ou compartilhar um cartucho de vídeo game, hoje virou uma discussão pura e simplesmente vazia.

Neste contexto discutir assuntos como depressão, alcoolismo (ou toda sorte de vícios) e o suicídio é uma tarefa para poucos e quem o faz, por que algumas pessoas fazem, são rapidamente vistas como antissociais, chatas, se não no melhor dos casos, apenas bregas.

A época do olhar cabisbaixo e do comportamento introvertido ficou para trás querido, começou lá com o The Cure nos anos 80, teve o seu auge com os grunge nos 90 e morreu em paz nos anos 2000 com a moda Nu Metal, não é hora de ficar triste queridinho.

Agora nós temos sucos detox, acompanhamento Coach, tutoriais de maquiagem, cinquenta truques para manter o banheiro arrumado, zilhões de aparelhos USB, panelas que não grudam, dieta vegana e aplicativos. O futuro te sorri e você é obrigado a sorrir de volta.

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O problema é que a depressão existe e mesmo que ela contrarie TODAS as suas crenças de autopreservação, e ela continuará existindo. Uma doença complexa que encontra no comportamento frenético moderno terreno fértil para proliferar, afinal de contas, está tudo dado.

Não faltam crises para assombrar e não faltam vícios para aplacar a angústia, você pode se viciar em Whoopers, em coca cola, em pornografia, em joguinhos estúpidos do celular, você pode se viciar no facebook e colocar no papel de ídolo a sua vizinha que tem um emprego merdamente, quase nada, aparentemente melhor do que o seu.

No caso mais extremo você pode se viciar em você mesmo e passar o dia todo tentando provar para todos que todas as suas decisões, suas opiniões, suas escolhas e os amigos que você mantém são perfeitos, essa é a palavra do dia de hoje, perfeição.

Na tarde de hoje, dia 20 de Julho, 2017, o mundo perdeu um ídolo de muitas pessoas na casa dos 30 anos. Chester Bennington da banda Linkin Park cometeu suicídio na sua residência, e o que tudo isso quer dizer? É difícil dizer, é difícil dizer o que quer dizer mas é possível concluir que todas as vezes que alguém decide tirar a própria vida é por que a comunicação falhou, quem estava lá falhou com ele. Quando um ídolo morre de maneira tão trágica é possível aproveitar a oportunidade para discutir assuntos sérios e tentar garantir que ninguém mais morra pelo mesmo motivo.

Linkin Park nunca foi uma das minhas bandas preferidas, ouvia essa ou aquela musiquinha, de todo modo é incômodo demais (e alarmante) concluir que os pedaços da sua juventude se desfazem.

Usando o ótimo livro intitulado “O demônio do meio dia (Andrew Solomon)” eu posso dizer que é hora de criarmos conexão para dividir o que há em nós de humano, de falho e de feio, usar o momento para darmos espaço para o diálogo honesto, pois, se continuarmos nessa busca incessante pela perfeição, pelo belo e pelo bem sucedido dias como o de hoje continuarão a existir, no frenesi da informação a morte de hoje foi só um link, alguns fãs vão enviar emotes tristes, os intocáveis do facebook ficarão indiferentes por fora mas irritadinhos por dentro e amanhã tudo acabou.

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