Contos

Spoiler Alert!

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Sarah tinha doze anos quando caiu com um tiro na testa, na verdade, dizer que o tiro foi na testa é pura liberdade poética, uma arma calibre doze não é capaz de atirar só na testa, isso acontece por que quando é feito o disparo a bala se dispersa em diversos projéteis de chumbo. De perto o resultado é impressionante, se pedissem a um desinformado para definir a causa da morte ele poderia fazer uma infinidade de suposições – caiu um raio nela? Ela foi devorada por um tubarão? Um trem, ela foi atropelada por um trem?

Não é a primeira vez que isso acontece com alguém daquela idade naquela região. É assim, alguns lugares são assim mesmo. Sarah vivia com a mãe e as irmãs em uma área de risco qualificada como zona de conflito, portanto, morrer com um tiro à queima roupa é uma das coisas mais esperadas para esse cenário. O que é que muda no caso de Sarah? Por qual razão ela merece esse conto?

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A equipe de reportagem levou quatro horas de carro até o centro da capital, após alguns momentos de descanso e um sono rápido foram mais oito horas até a cidade onde a família de Sarah morava. Se adicionarmos o tempo necessário para cada repórter sair do seu país de origem podemos chegar facilmente ao resultado de uma semana em todo o trajeto.

O corpo da menina não estava mais lá, isso é lógico, foi removido e jogado em algum outro lugar, talvez uma fogueira. Na certa o mesmo homem que efetuou o disparo também foi responsável pela remoção dos restos. Não que remover o corpo destroçado de uma garota de doze anos fosse uma tarefa importante, eles já haviam deixado muitos outros para trás pelo caminho mas neste caso era preciso ter atenção aos detalhes. Eles sabiam através de alguns informantes que os repórteres chegariam no começo da semana seguinte  e era uma ótima oportunidade para fazer uma demonstração de força, contudo, o líder sempre acreditou que na hora de ganhar a opinião pública é preciso traçar uma linha entre a força e a barbárie e após uma reunião rápida ficou decidido que corpos de crianças do sexo feminino ultrapassavam essa linha. A menina foi removida e jogada em um latão cheio de gasolina que ardeu e soltou um cheiro horroroso por metade da noite.

A mãe e as irmãs foram silenciadas também, nada seria pior do que ter gente falando merda para a reportagem.

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O link ao vivo que abriu a primeira edição do jornal mostrava uma repórter maquiada e bem hidratada no que parecia ser uma zona mista entre grupos militares e transeuntes civis  – falamos da zona de conflito, aqui são sete da manhã, está bastante quente, como você pode ver existem muitas pessoas nas ruas agora, não existe um cessar fogo oficial mas a presença da nossa equipe parece ter dado coragem para as pessoas saírem um pouco de suas casas.

Já era meio dia, a repórter, agora muito mais cansada e desgastada pelo calor, estava almoçando no seu trailer quando o seu celular vibrou, o seu assistente havia deixado uma mensagem de áudio que ela não conseguia compreender.

São 5 da tarde, os repórteres sobreviventes estão reunidos no saguão principal do hotel, alguns deles ainda têm as mãos tremendo, outros estão tentando demonstrar calma e frieza para acalmar os companheiros. Todos tentam ligar para alguém, falar com alguém ou fazer com que uma mensagem que seja chegue até o seu destino.

A televisão e a internet já estão forradas com as cenas das explosões, foram doze ao todo, algumas bombas foram posicionadas em esquinas, outras foram grudadas diretamente na lataria dos carros de reportagem, uma explosão foi causada por um tiro de bazuca que partiu direto da zona de conflito em direção ao grupo de repórteres.

Os mais puristas parecem em frenesi, como se sempre tivessem esperado pela oportunidade de viverem isso – reportagem de conflito é isso mesmo, você deve compreender, você está bem? Por favor tome mais um chá.

Dez e quinze da noite, em uma cidade localizada a mais de 3500 quilômetros do local onde ocorreram as explosões alguns parentes e amigos se reúnem para organizar um encontro religioso em homenagem as vítimas, dentro da casa encontram-se os parentes de alguns repórteres e alguns outros funcionários do mesmo canal. Um link ao vivo está sendo programado para aquela noite.

Hoje faz cerca de 3 meses do ocorrido e Michele acabou de dar like e fazer um comentário abaixo de um meme que mostra metade de uma van em chamas, na edição o autor do meme trocou o logo do canal de televisão por uma foto de uma das personagens de uma série de tv, quando Michele viu a foto o riso foi instantâneo – hahaha, tomara que morram todos eles – comentou, fazendo alusão à série.  Seu amigo, que gostaria muito de transar com ela, comentou logo abaixo – hahah, porra, o último episódio foi intenso, você viu?

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Todas as imagens são de Joe Sacco, se você ainda não conhece os trabalhos dele deveria procurar agora, vou indicar especialmente o Palestina.

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